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terça-feira, 17 de março de 2015

12 semanas e 4 dias

lá estavas onde devias estar
não sabias que sabíamos de ti
não sabias ainda sentir
o que eu já sentia
por ti
e por todos esses milímetros
translucências e órgãos
eu, queria apenas contemplar-te…
eles, procuravam as válvulas
os ventrículos e os teus medos
as mãos a alma contavam-se os dedos
fungavam franziam sabiam que faziam
eu, queria apenas contemplar-te…
viravam-te e devolviam-te
àquilo que eu queria que fosses
fiquei sempre quieto
sozinho a um canto, irrequieto
pulavam-me as inquietações
de homens bravios, às orações
que me afugentassem as preocupações
sei que me sentiste
e que gostaste de mim
baixinho, mesmo muito baixinho
que não podia fazer barulho
jurei-te amor eterno
sei que me sentiste
e que gostaste de mim
e o quanto eu gostei de ti

Nuno Miranda Torres

terça-feira, 1 de julho de 2014

Para quando as portas rangerem de dor

Sei que um dia tens de ir
pergunta antes se podes partir, depois de mim
sempre depois de mim
amputaria as duas mãos
para não te dizer adeus
sem mãos, acenaria a cabeça
dando-te uma mão cheia de nãos
ajoelhado, mão juntas
defuntas, pedindo a deus
que o que sobra do retalho
das memórias, das raízes e das gavetas
não se engavetem as que estão mortas
que se abram mesmo que ranjam
e que ranger seja apenas a dor das portas
abertas, ao fundo o estúpido espantalho
que no rir do enxovalho, devia era espantar
mesmo que a morte não tivesse asas
nem bico, nem cagasse do céu
devia espantar, não espantado
por estar morto, quando não há vento
essa pouca brisa do norte, que não trouxe
pouca terra pouca terra de sorte
quando te vi, partir sem mim
sei que um dia tens de ir
voltando ao princípio de ti e do poema
não te esqueças de perguntar antes
se podes ir,

se eu conseguir, 

vou contigo




E.M. Valmonte



Fotografia de E.M. Valmonte em "Na areia, não se enterram os filhos"

domingo, 1 de junho de 2014

No dia em que te sentares na lua



Conheço homens com sonhos e uma só criança sem eles. No fundo, não é da tristeza que não lhe vem os sonhos. Nem tampouco da pobreza, que sempre faz nascer um ou outro, por aqui ou por ali. Será da falta de destino? Ou serão as múltiplas estradas que encaixam umas nas outras, sem terem fim?
Sentados num café, usámos a tolha de papel para aprendermos que as crianças e os homens, têm o tamanho que os sonhos quiserem. 


 "No dia em que te sentares na lua, não deixes de admirar as estrelas"

Desenho de E.M.Valmonte, numa toalha de papel de um café, a ensinar o filho a dimensionar os sonhos.

sábado, 16 de novembro de 2013

Os homens não choram

chorarei todas as lágrimas
que se chorar numa vida
a vida que me afogará
numa única lágrima tua



efrem miranda

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mesmo que eu

Para onde foste?
para nascer
precisas de uma mãe
essa indómita  arrogância
pensares que consegues nascer sozinho
sem mãe
sem pai
mesmo que não precises de aconchego
ou que eu te diga boa noite
foi por felicidade
que te imaginei
que te desenhei
eu não queria crescer por ti
mesmo que não me quisesses dar a mão
nos primeiros passos
mesmo não querendo que o meu lenço
te enxugasse as primeiras lágrimas
mesmo que eu assistisse de longe
não precisavas de partir
nem de infligir tanta dor
faz doer
não te ver crescer
para onde foste?
nem sequer me disseste
de que cor querias que te pintasse o quarto.
efrem miranda

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Homem-Folha




se eu fosse um homem-folha
viesse o vento e me deixasse cair
no campo de flores coloridas
que as tuas mãos
escavavam
plantavam
regavam
podavam
colherias mais tarde
mensagens de ternura
cravadas no tronco
de quem fizeste árvore

nas minhas raízes
correrá o que me ensinaste
a minha copa será das mais altas
como foram os teus desejos
na sua sombra, o reflexo
de quem brindou com sorrisos
os meus vícios de querer crescer

amanhã estarei noutro jardim
serão então as minhas folhas
que te entrarão na janela
e num rodopio constante
voltaremos a brincar
apenas o tempo
que demora a saudade

a saudade do teu regador
a saudade das tuas mãos
a saudade da tua água
a saudade da tua terra
a saudade do teu jardim

a saudade de ti



(*) foi assim que o meu filho se despediu das suas educadoras.   



quarta-feira, 20 de março de 2013

Filho!


quero que aprendas a voar
o mais alto que conseguires
eu serei a tua terra
quando as tuas asas humedecerem

estarei à espreita
quando brotarem as primeiras lágrimas
não chorarei contigo
tentarei que não chores amanhã
 
gosto de te ver crescer

orgulhoso
sento-me no beiral da casa velha
enquanto plantas os teus desejos
calcas as folhas
desordenas as sementes
e na impaciência de um filho
abraças o regador
como se ele te moldasse o destino

o silêncio de ser pai
ensurdece com a tua gargalhada
levanto-me, como quem renasce
e abraço-te
como se me moldasses o destino

se te perderes
estarei sentado no velho cadeirão
perto do teu destino

e.m.