O passo é pequeno para aquilo que
as pernas podiam galgar. Sempre foi pequeno desde nascença. Nunca pode ser
maior, que a carga sempre sobrecarregou as costas e as oportunidades de ser
mais e melhor. As costas direitas não vergam por ser pobre, não vergam por ser
podre o cheiro a que cheira o “por mais que faças não há maneira”. E é esse
passo pequeno que não deixa dormir o medo, não encaixa a esperança de um dia
saber correr, mesmo que esse tal correr de passada larga, seja apenas uma forma
histriónica de fugir de qualquer coisa.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
não passam de migalhas de pão
A mim não me faziam parar de voar
por insignificantes migalhas de pão atiradas ao chão. A mim não me faziam parar
de voar, que a fome pode tirar o desejo, mas não me tira a dignidade. Lá de
cima, de asas bem abertas, os pedaços de pão parecem maiores que o estômago,
parecem mais bonitos que o céu e mais frescos que a brisa que vem do Norte.
Tudo não passa da ilusão de querer tudo o que cai do céu e se desfaz na terra
dos outros.
O que levará estes incautos seres-tão-pouco-vivos a descerem à
terra em voo picado, para se juntarem ao despique por pequenas e ressessas
migalhas de pão, lançadas com desprezo para os pés de quem nunca voou?
segunda-feira, 8 de maio de 2017
meia-vida
A meio do caminho, se é que se
consegue fazer apenas metade de um caminho, começou a chover copiosamente. Por
vezes a meio da vida, se é que se consegue saber o dia exacto do meio da vida,
a chuva não deixa a vida sair de casa. Do bairro, vem o medo da solidão, vem o
medo de nunca saber dizer que não, a meia-vida que teima em sair de casa, mesmo
sabendo que de depois de molhadas é mais difícil o bater das asas.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Simplicidade
Começa a saber bem quando se
aprende a saborear fácil. Enquanto os outros se enfartam, enquanto os outros se
matam, é simples poder destravar a tranca da janela e irromper no mundo por
ali, por onde nada se passa para além do cantar dos pássaros e do deslizar do
riacho.
sexta-feira, 28 de abril de 2017
a passar em rodapé
A noite está escura. Gosto de vir
para aqui, nas noites escuras, ver as vidas a serem vividas. Não vi o gato que
me vigiava e este encrespou-se assim que me aproximei. Acalmei-o com um pedaço
de pão que se esfarelava no bolso, depois sentei-me e ele sentou-se a meu lado,
como que reconhecendo que este observatório de vidas improvisado era
suficientemente grande para dois voyeurs nocturnos.
O filho da dona Arlinda fuma às
escondidas na marquise, o Serguei por vezes embebeda-se e bate na mulher que é
cabeleireira e precisa da vista. Quando não está bêbado é um amor, gosta de
ajudar o sr. Fernando a cuidar do jardim e de enamorar a Corália da mercearia. A
filha do Serguei é bastante nova, demasiado nova para fugir pela escada de
incêndio para ir fumar e fazer outras coisas começadas com efe, com o filho da
dona Arlinda. Eu e um gato preto, gozamos a noite e comemos migalhas de pão,
enquanto vemos as vidas deles a passarem em rodapé pelas nossas.
terça-feira, 25 de abril de 2017
amar no campo
O homem faz da terra o que lhe
apetece dela. O campo devolve tudo ao homem em dureza, encortiça-lhe a pele,
greta-lhe os lábios e tira-lhe o encanto de ser delicado. Esse campo é o mesmo
que devolve tudo em pobreza ao homem, naquela réstia de encanto de ser
dedicado. Germina da terra e cai por terra a vontade do que for para colher.
Germina no vale o que não pegou na serra, nasce da terra o que parte dela vem
para morrer. As cepas estão viçosas, as árvores floridas, a batatas já foi
sachada e as cabras balem à chegada da mulher amada. O homem faz do amor o que
apetece dele. O amor, ou seja o que for, devolve tudo ao homem naquela réstia
de encanto de ser dedicado, não por vir da terra, mas por ser mais fértil amar
no campo.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
o sítio de ser sozinho
Há um sítio que não precisa de
morada, faz cabana da alma e é sempre nesse caminho que o corpo procura a
calma. Calma de respirar sozinho, beber um copo de vinho e ouvir o vento que
vem do silêncio e do cheiro a azevinho.
Não tem número nem caixa do correio,
não tem estrada nem passeio, faz de conta que não conta ter o corpo num sítio
assim.
E qual é o teu sítio de ser sozinho?
quinta-feira, 20 de abril de 2017
todos sabem mas ninguém viu
Nem todos os crimes, só por serem
crimes, merecem o castigo de crime, à bala de seiscentas verdascadas de vime nas
costas.
Sabe-se que ele matou, sabe-se que matou por prazer e para estar bem
com a sua consciência e até com deus. Sabe-se que não foi meigo, que não lhes
tirou a vida só para deixarem de viver, que não lhes tirou a vida para deixarem
de ser, aquele estorvo que os viu nascer. Sabe-se que ele lhes infligiu dor,
uma espécie de dor tão forte que o cérebro pede à morte que o conforte. Foram
três intermináveis dias de dor. A meio da tarde do segundo dia, que até estava
soalheira e bonita, eles pediram clemência ao homem, que tivesse a decência e
os matasse depressa.
Sabe-se que ele continuou, que a dor não parou até o sol
querer parar aquela herança, que a vida lhe deu em forma de vingança. Sabe-se
quem matou e quem morreu. Sabe-se que eles morreram de tanta dor. Sabe deus como aqueles marginais lhe tinham deixado o corpo da neta ao destino violado de uma valeta. Todos sabem, mas ninguém viu.
terça-feira, 18 de abril de 2017
confiança
O prazer de confiar vem das
tardes quentes que nem sequer precisávamos um do outro, mas que nos tivemos
apenas naquela coisa de ir passando pedaços de tempo à velocidade que uma tarde
quente nos exige por passar por nós. Se amanhã estiver frio e se o portão
estiver aberto, sei perfeitamente que te posso dar por certo, naquela réstia de
verdade que devo precisar de ti. O prazer de confiar vem da verdade, da
verdadeira saudade que o passar do tempo deixou por passar. O prazer de confiar
vem da mesma verdade com que se lambe as mãos, o suor ou o sangue que escorre à
velocidade que uma tarde quente exige por passar por nós.
quinta-feira, 13 de abril de 2017
aluguer de companhia
Enquanto
a mulher fazia os tratamentos de quimioterapia, ele acomodava o corpo e a
consciência, num banco de madeira sujo e duro, que nestes prognósticos sórdidos
de morte, sabe mal à mente que o corpo esteja bem instalado. Vem a culpa de
estar sentado, de não ser ele a estar agoniado, de não ser ele a estar a prazo,
de não conseguir livrar a mulher do afrouxar do compasso. Os bolsos das calças
vêm de casa atulhados de migalhas de pão, chamam os pombos, aliviam os tombos e
as quedas da solidão. Sai barato este aluguer de companhia que o pão não
precisa de ser do dia. Enquanto o pão dura a companhia perdura, o esvoaçar das
penas faz dele um homem de dores mais pequenas. Há um pombo que fica sempre
para depois da sofreguidão, como que a devolver a migalha de sossego à solidão.
Assim que a mulher chega, sempre debilitada, o último pombo de companhia
afasta-se, deixando o reconforto de um regaço fazer de casa, que afinal a
solidão de um homem sofrido, pode caber debaixo de uma asa.
passar ao lado de um vizinho
Os vizinhos falam com os olhos e
com os acenos, numa dose certa de cumprimento que não pode ser de mais, mas
também não pode ser de menos. Hoje dona Arminda olhou-me diferente de ontem. Em
passo acelerado vociferei como sempre – dona Armiiiiinda – como se ela fosse
para mim um princípio de um momento e que a minha voz ficasse a pairar no ar e
a seguisse para todo o lado, fazendo-lhe merecida companhia durante o dia. Hoje
ela não respondeu e num acesso de mais por menos sem aquele excesso de cuidar,
eu sabia que os olhos dela me pediam ajuda mesmo sem se lembrarem de quem eu
era. Naquele momento, ela não sabia quem era, não sabia quem foi, onde morava e
se ainda tinha alguém que a amava. Naquele momento, eu para ela era um
desconhecido e ela para mim passou a ser um pouco mais que uma simples vizinha,
numa dose de cumprimento que foi própria daquele preciso momento.
terça-feira, 11 de abril de 2017
o que o tempo faz aos olhos
São as fendas de um rosto que lhe
dão o gosto de ser mais, de ser mais que os outros, de saber mais que os outros
que se põem em bicos de pés e ainda não têm aquela força nos dedos que o
cultivo da terra lhes dá.
O que os olhos já choraram, podiam inundar os lábios e
da boca não conseguir mais respirar para além de uma lufada vinda do fundo da
alma. Desses mesmos olhos soltam-se palavras incrustadas que a boca recusa
divulgar, palavras ditas em surdina, não por serem segredos, mas por se tratarem
de medos do que a vida lhe pode reservar. O sol encortiçou-lhe a esperança e a
ligeireza que tinha na dança esqueceu-se que já foi criança e deixou de
rodopiar. O corpo pede mais calma, enche-lhe a alma ferindo-lhe o rosto, as
fendas fundas que lhe dão o gosto de ser mais, mais que os outros, mais que
ontem e até mais que o desgosto.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
passado
Vem de trás a mania de trazer o
que já não faz falta. Vem de trás a vontade de parar, de pé em riste a fazer a
falta, deixar o tempo coxo até ficar roxo, numa maca esquecido à espera que lhe
deem alta. De tanto olhar para trás, não fui capaz de perceber que vem sempre do
passado a vontade de lamber as feridas, esquecê-las em cinzas depois de
ardidas. Lembro-me da linha que me trouxe até aqui e eu hoje sei que não quis
ser ninguém, que vem do passado a história que um homem tem e não é de hoje a
vontade de ter nascido em Jerusalém ou ainda mais além, que na história o que a
distância pode tirar à vista ficará para sempre na memória.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Pergunta para queijo: quantos filmes realizados por woody allen consegues encontrar no texto?
Toda a gente diz que te amo,
através da noite vais conhecer o homem dos teus sonhos e tudo pode dar certo. O
sonho de Cassandra ou uma outra mulher, que entre maridos e mulheres na
intimidade, nem guerra nem paz, apenas recordações de setembro ou de Manhattan,
onde nas sombras e nevoeiro, os vigaristas de bairro disparam balas sobre a Broadway,
fruto de crimes e escapadelas de uma poderosa Afrodite. Aquela meia-noite em Paris, desde Alice num abc
do amor ao match point do homem irracional, uma comédia sexual numa noite de
verão, como que magia ao luar de celebridades, para roma com amor de uma
qualquer blue jasmine.
Ao responder acertadamente, habilita-se a ganhar uma magnífica porção de rigorosamente nada. Não perca esta maravilhosa oportunidade.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
ciúme
Eu vi o céu a abrir-se à tua
passagem, e com aquele exibicionismo barato, vi o brilho que reflectia dos teus
olhos. Talvez por não ser capaz de tal façanha, atacou-me o ciúme de saber que
não chego primeiro ao cume, mesmo recorrendo à manha empertigada de fazer
batota. Diz-me, como querias que um homem sem cabelo, fizesse de Sansão, e à
força bruta das mãos rasgasse o céu com a mesma leveza que te levantou o véu? Custa-me
que sejas capaz de me trocar por tais banalidades, que abrir o céu, não é maior
que jurar amor eterno e por mais terno que te parece esse gingão de céu, eu
também posso parecer bem-parecido, se para isso tiver que usar chapéu.
terça-feira, 4 de abril de 2017
regressar
Parece
que o sol também sabe que o homem sempre regressa a casa, caindo devagarinho o
sol, esse homem e a vontade de abraçar a mulher e os filhos. Os olhos vão
fechando de cansaço e ao mesmo tempo os sorrisos das crianças vão aumentando de
sonoridade e de ansiedade. Falta pouco para que a buzina do camião faça soar o
jantar e a partida das crianças numa corrida infernal de serem as primeiras a
chegar à porta. O camião costuma bufar de cansaço quando é desligado e quase ao
mesmo tempo o pai chegará à porta com os abraços fortes, beijos prometidos e
algumas prendas de França. A mulher, mais comedida, sente o coração apertado de
cuidado. Ela sabe que um dia pode a buzina não soar à vontade de o beijar. Pode
o camião teimar em não chegar, teimar em não trazer de volta quem nunca quis
partir.
domingo, 2 de abril de 2017
fim da estrada
Querer morrer de amor, pois se
tiver de ser seja o que for, mas que seja rápido e o homem poupado de tal dor.
Foi-se a distância da estrada que
o que resta dela pertence à vontade de atravessá-la. Não soube a mulher receber
prendas maiores, como Maria recebeu, não soube o homem vender a alegria, que de
graça não se vende a felicidade que Maria lhe deu.
Nesta estrada sem sul e pouca
sorte de norte, se ninguém vier de baixo, de que serve a morte ou a lágrima, se
não for lambida por quem vier de cima.
Se ouviste dizer no fim dessa estrada, que a tua
alegria vale menos que o amor dos outros, faz de conta que não contam os
quilómetros desde a felicidade que Maria te deu.
sexta-feira, 31 de março de 2017
matar por matar
Saiu
de casa com o propósito único de matar, mas um matar diferente daqueles que
move as vinganças. É um matar sem ira, uma vida que se vira num segundo, uma
pouca sorte deste inocente que ficou sem mundo e de morrer sem saber porquê,
não foi por isso que não deixou de ir ao fundo. Mata ao acaso sem fazer caso
que o sangue sabe todo a ferro e debaixo da ponte passa o camião que ilude o
berro, de dor e desta imensidão de calor que o derramar do sangue lhe dá. Já
sabe a sangue e hoje o corpo nem parece morto da recusa de fechar os olhos,
resta cruzar-lhe os braços e ceifá-lo da ponte como lhe ceifou uma faca na
fonte. Que alguém o descubra na via pública, que algures por aí estará uma mãe
que o quererá chorar.
quarta-feira, 29 de março de 2017
vida parada
Talvez se um dia a vida parasse
de parar o aconchego que se espera dela, não fosse preciso eu construir um
foguetão, pela própria mão que me acene depois de partir daqui. Talvez se um
dia o dia parasse, com ele parado eu me calasse e não fosse preciso construir
um muro ao punho, duro que me magoasse depois de o ter erguido à toa. Talvez se
um dia a terra parasse de girar, eu conseguisse voar sem asas, conseguisse
migrar sem que soprasse o vento, conseguisse sobrevoar o desalento de voltar a
encontrar o mesmo homem que partiu. Talvez se um dia, no final do dia, o sol se
quisesse ir deitando, à medida que o fogo de partir se aproximasse da água
parada da poça, pequena de tamanho, grande na troça, de querer reflectir um
homem a querer fugir.
terça-feira, 28 de março de 2017
de marcha-atrás a mudar passados
Agora é mais difícil convencê-lo
que, por mais depressa que ande em marcha-atrás, nunca chegará àquele pedaço de
passado que não se apaga por se ter enganado. Foi nessa noite maldita que o
volante virou demais, e à farta colheita ceifou o que ainda verde o amor lhe
deixou, que é difícil acreditar que no mesmo caminho ainda possa haver uma alma
que se perde. Pena que as árvores mais altas aqui não vingaram, para taparem o
céu azul e o bom tempo que vem de lá, como facas afiadas no peito desse homem que
não tem culpa que a escolha reclame o defeito. Soubesse ele desta escuridão e
tinha fingido um finge-que-vira-mas-não-vira, um destes fingimentos que o
livrasse da ira, dos seus próprios arrependimentos. Ele que engate a primeira e
acelere sem derrapar, que à frente a curva é apertada e sem demora
vira-que-vira para o mesmo sítio de voltar a escolher os caminhos de outrora,
sem saber dos buracos que podem ter agora.
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