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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

No medo da virgem e do menino

Saberei dizer aos outros
o que levas de mim para dentro de ti
a arfar, que de um pedaço que era teu
fiz de mim aquele homem, que ontem morreu

morri de morrer, de achar que saber viver
mais que hoje, morrer de mais por menos
que devia viver sem esperar o morrer
do cadafalso à memória dos humanos

fraqueza na força do fraco do querer
não fosse o fraco de força a crer
lá a coragem do forte se esvaecia
no medo da virgem e do menino

E.M.Valmonte

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Era uma mulher pequena. Tornou-se pequena, pelo amarrotar da vida. Tornou-se pequena, também na dignidade. Nunca teve a culpa. Foram sempre os outros que a pontapearam para fora da vida. Ela também sabe que tentou pouco, mas mesmo que se tivesse esforçado, nunca teria sido mais do que a puta que foi. Talvez uma puta mais digna, mas sempre uma puta. E sempre preferiu ser uma boa puta, do que uma sonsa de merda sem comichão na rata. Ainda assim, a vida sempre pareceu que se divertiu com ela. Chamava-se Fé. Maria da Fé, mas todos a conheciam apenas por Fé. Também ela tinha uma áurea resplandecente, de quem aparece aos outros, quando eles precisam de acreditar nalguma coisa em grupo. Fé deixou de acreditar… ainda cedo. Os outros deixaram de acreditar nela… quando o seu corpo cedeu. A Fé foi-se desvanecendo. Morreu... quando todos deixaram de acreditar.

E.M. Valmonte