domingo, 29 de novembro de 2015

Novembro

Tens os dias contados Falta-te apenas um dia. Um singelo dia, do tamanho dos outros. Mas falta-te um dia de semana, provavelmente um dia de trabalho, e isso é mau para quem estará morto depois de amanhã.
Afinal de contas, duraste o que tinhas que durar, pelo menos o que a maioria das pessoas queriam que tu durasses. 

Podes morrer em paz.

sábado, 28 de novembro de 2015

sem palavras



que as palavras ditam os homens 
se isto é um homem
então que palavra tão extensa
me estenderá o querer
esquecer a pequenez deste ser 
de não o voltar a descrever

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tomar banho antes do meia-piras

Naquele dia, Arménio não estava disponível. Tinha catequese até tarde. Naquele princípio de Outono, era apenas o António e o Jerónimo, de um grupo que sempre fizera esquecer a solidão e os medos. A dois, não se jogava ao berlinde, mesmo que a imaginação sempre fizesse esquecer o eco que vinha dos quartos. Alguém tinha que dizer “últimos”, “penúltimos” e “marralhões”, “cavalinho-branco” ou “estrela-do-universo”. Palavras de comando que delimitavam a ordem de começar a jogar. 
O Pedro e o Paulo foram com os pais buscar meio borrego à terra. Restava a Catarina, que o pai era comunista, e tinha um olho-de-boi lindo de morrer, mas tinha pouco jeito com os berlindes, embora uns olhos apaixonantes de quem gostava de brincadeiras de rapazes.
Os calcanhares de Jerónimo calcavam a terra até aparecerem buracos perfeitamente redondos. Era sempre Jerónimo que fazia os buracos na terra, que os calcanhares dele passaram por mais adversidades na vida e eram mais ásperos, próprios para aquele serviço. António, astuto por natureza, disse “últimos”, ainda antes de Jerónimo acabar o buraco do piras. Esqueceu-se António que naquele mundo ingénuo-arcaico do berlinde, dizer “últimos” não asseguraria a vantagem de jogar em último. Jerónimo, filho de um homem fabril e duro no trato, mas honesto, disse “penúltimo” de forma convicta e Catarina seguiu-o dizendo primeiro “marralhões”, emendando depois para “cavalinho-branco” por ser mais bonito e poético.

Os buracos distavam entre si, milimetricamente, o regulado e aceite universalmente como um palmo de criança. A ordem de jogo, ganha por justiça e honra era “últimos, marralhões, cavalinho-branco, penúltimo e estrela-do-universo”. António, agora menos confiante, arremessou o primeiro berlinde, que distou consideravelmente do primeiro buraco. Seguiram-se Catarina e Jerónimo, assim como seguiu aquela tarde, igual a muitas outras, irrompendo-se pelo escurecer do dia e da hora de sempre recolher a casa.
Fiquei por saber se acabaram o jogo. Prometia sagacidade ao início do meia-piras, para lá do piras, ao chegar ao matas. Abandonei-os quando a minha mãe me chamou para tomar banho. Discutiam sobre o tamanho do palmo de António no terceiro buraco. Nunca se entendiam quanto ao tamanho dos palmos.

Muitas vezes, mesmo muitas vezes não se acabavam os jogos. O rufia do Aníbal aparecia sempre ao fim da tarde, depois de varrer a drogaria do pai, e com o abafador (uma leiteira imaculada), abafava os berlindes mais pequenos dos outros, as ideias maiores dos outros e o resto das crianças que ainda existiam por ali.

Sorte que eu, sempre tomei banho mais cedo que os outros. 

sábado, 7 de novembro de 2015

Acordo à esquerda

Escrevo a uma mão. Como se de um recital de um meio pianista se tratasse. A outra mão, a menos importante das mãos, segura dez réis de gente, que dorme profundamente. A mão menos importante, segura naquilo que me faz viver e envaidece-se por isso. Reclama importância por dependermos dela. Reivindica cuidados futuros, ameaçando perder a força de repente, caindo-me a vida e este aconchego de cinco quilos, que tranquilamente me dá a paz de uma criança.
Enquanto se mantiver este impasse da mão esquerda, seguro-a com a mão direita, não vá ela boicotar a força e deixar cair o que mais importante há na vida. C o m a s d u a s m ã o s o c u p a d a s , a p e n a s s e c o n s e g u e e s c r e v e r a e s p a ç o s c u r t o s ,  e s p a ç a d o s d e i m a g i n a ç ã o.

Acordaremos que em diante as tarefas de segurar a faca, limpar o rabo e acenar quando for para dizer adeus, ficará sempre a cargo da mão esquerda. Será ela também a espaçar as palavras e a embalar os filhos.
Como não sei por quanto tempo durará este acordo, aproveito o tempo para olhar, sentir respirar, ouvir chuchar e aconchegar estes dez réis de gente, embalados por esta mão esquerda ávida de poder.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O habitual

Gosto de chegar ao café da Beatriz e dizer apenas – o habitual – ou nem sequer dizer nada e dali a nada ter uma meia de leite directa e um pão com manteiga na mesa do canto ao pé da máquina do tabaco.
É fazer parte daquele café e da vida daquelas pessoas. Descodificar os trejeitos e fazer deles o nosso próprio diálogo. É saber que o Henrique, o filho da Beatriz, fez ontem o teste de matemática e que provavelmente daqui a uns anos estará ali a servir à mesa. É saber de antemão que a Beatriz se chateou com o Justino, apenas pela forma como o pão vem barrado com pouca manteiga.

Sou e sinto-me o cliente habitual. Aquele que acha que tem privilégios e que é constantemente gratificado com os produtos mais frescos. Aquele que no Natal não paga o café, e em tempos de bonança, tem direito a um bolo-rei. Aquele a quem guardam o jornal desportivo, intacto, para não estar amarrotado na primeira leitura do dia.

Eu também sou aquele café.


Estou farto de meia de leite e enoja-me o pão barrado de manteiga, mas não tenho coragem de inverter a minha própria essência. Esta maldita essência monótona de ser habitual.

domingo, 1 de novembro de 2015

Silenciar as campainhas

Dona Remédios esperou toda a manhã que a sua campainha tocasse. Na janela do terceiro andar, por entre as portadas de madeira, que há muito deixaram de proteger do frio e da solidão, ia espreitando cheia de esperança de voltar a ser criança. Valeu-lhe a memória das saias rodadas, as meias bordadas e as fitas no cabelo. Valeu-lhe as memórias do cheiro que vinha da terra, das nozes dos dedos nas portas e do respeito que se tinha aos mais velhos. Valeu-lhe a memória de um pão-por-deus feito de nozes, pão e passas que tanto custaram a passar.
Há muito que deixou de dar pão e vinho aos mortos. Os cartuchos de guloseimas esperavam boas novas. Os velhos deixaram de esperar boas novas, como os novos deixaram de as trazer.
Há muito que as cidades deixaram de ter campainhas. Há muito que as cidades deixaram de ofertar coisas a pessoas estranhas. Há muito que as cidades deixaram de ser das próprias pessoas.  

Ninguém tocou a campainha da dona Remédios. Ficaram por dar os cartuchos que mais não tinham que as suas memórias de outrora. Que mais não tinham que sorrisos prendidos ou suores de trabalhar no campo.
Ficaram os cartuchos de guloseimas por dar. Permaneceram as memórias de um pão-por-deus cravado à terra, colocado num saco bordado em linhas paralelas, que sempre lhe fizeram lembrar as linhas da vida, que fechavam em cima com um nó cego, como se da morte se tratasse.

Ainda bem que a morte não soa campainhas, como hoje não soaram as da dona Remédios. Ficou a vida por viver e os cartuchos de guloseimas por dar.

domingo, 25 de outubro de 2015

As diferenças entre o demasiado miserável e o demasiado poderoso

(...)considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficientes são as leis que impedem ao miserável ser demasiado miserável, e ao poderoso ser demasiado poderoso.“ 

                                                              Primo Levi - Se isto é um Homem




“Tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas porque como sabe eu também não recebo vencimento como Presidente da República”.

                                                                Aníbal Cavaco Silva       



domingo, 11 de outubro de 2015

O mesmo e o contrário do mesmo

maço de folhas brancas

                 mulheres integralmente nuas
    
                                      genuínos medos, vontades francas

                                                     noites frias, vice-versa e capicuas

                                                        



nuno mc

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Roda-Viva

Tem o que tem
o que não tem nada
tem o nome da desfolhada
a música e mais ninguém

tem nada
se tiver o que mostrar
se nada houver que amar
além da sua amada

tem tudo
e se nada for, sobretudo
por sentir solidão
pena e gosma de perdão

fazenda fina, pura seda
toque a caxemira,  fina moeda
gosto ácido do bourbon
belas as mulheres do Simeon


roda-viva

altiva frutose de epicarpo
roda a morte deste viver
que é sorte morrer a ver
que da vida, levamos o corpo


nuno mc

Um homem, com um par de gerberas na mão

Hoje as gerberas não trouxeram a primavera. De caule bem arranjado, o homem que as trazia vinha apaixonado. Vinha apressado, que o tempo de recordar é curto, quando se recorda um amor de uma vida. De fato completo, perfumados e decididos a chamar a si, todo o tempo que a memória gosta de sacrificar.
Sabe o homem que o amor de uma vida, não voa à mesma altura que um par de gerberas. Sabe o homem que não conseguiria colher todas as flores do campo.

Um homem, com um ramo de gerberas na mão, pode dizer mais que apenas a data que ele quer recordar.  

nuno mc

domingo, 4 de outubro de 2015

A minha vizinha Genoveva sempre foi uma mulher de direita

Dona Genoveva era uma mulher nova antes do 25 de Abril. Não seria a mulher mais bonita, mas era ainda assim interessante na elegância. Hoje, enrugada apenas pelos anos, que a vida nunca lhe foi madrasta, considera-se uma mulher de convicções, sem pejo no linguajar e no confronto directo.
As amigas costumam esperá-la para lanchar. Falam dos homens, não daquele interesse felino das mulheres sobre os homens, mas da nobre faculdade de se conseguir ser homem. 

Sondaram-na três vezes.

Ela negou a Pedro, como Pedro negou Jesus. Pedro negou por medo, ela apenas por vergonha.

nuno mc

sábado, 3 de outubro de 2015

Abstenho-me de morrer enquanto a vejo cair

Do meu quarto, vejo uma árvore com folhas. Em dias de reflexão, sento-me no cadeirão de mogno, fixo-me numa folha e tudo o que faço é esperar que ela caia. Pode demorar dias, como costumam demorar as minhas indecisões. Não tenham pena de mim. Nestes momentos não há aflições, repercussões ou abnegações. Não me nego e não elejo ninguém. Espero apenas que a folha caia. Espero apenas que ela não se magoe, de tanto eu achar que ela não serve para mais do que varrê-la para um caixote. Como se fosse ela a higienização deste crepúsculo que eu absorvo, quando olho para dentro da vida ou para fora de mim.


Tenho assistido ao desfalecimento gradual da minha vida e também ao das folhas de uma antiga nespereira, que invejo do meu cadeirão de mogno, sempre que preciso de escolher um caminho. As garrafas de vinho absorvem as más escolhas e tornam todos caminhos mais belos e as folhas de nespereira mais perenes.

nuno mc

sábado, 19 de setembro de 2015

Bolo de chocolate

Caminho que não sabe
o destino, que não sabe
a rota que aperta, a manhã
que na hora se desperta
o caminho que não sabe
o destino, que não sabe
a cor da saia da dona Berta
o cheiro a que cheira
um bolo de chocolate
o cheiro a que cheira
poder amar-te
caminho que não sabe
o destino, não sabe
quando parar, não sabe
o que há para amar
o cheiro a que cheira
a verdade, na saudade
de um bolo de chocolate
a mentira da sina que trina
em poder amar-te
caminho que não sabe
se o passado existir, em mim
se o fim não se sentir, mais para além
do que nesse passado ficou, aquém
do resto que ficou de amar-te
as gerberas em manto, alergias
as lágrimas em pranto, de morrer
se eu não estiver farto, de viver
em bocados pequenos de vida
que outrora fizeram caminho
que de não saber o destino
não soube nunca morrer de amar-te
de cheirar aquele cheiro
hálito do primeiro beijo
o primeiro de ser verdadeiro
que sabia a bolo de chocolate

Nuno Miranda de Torres

domingo, 13 de setembro de 2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Carta

Eles namoravam sempre por carta, que a escrever ama-se mais profundo. Era a distância que não permitia um namoro de contacto. Era o respeito a um deus que não permitia um namoro de facto.
Ele fugiu da morte, toda a vida. Ela fugiu da sorte, como quem foge de morrer pelas mãos de um carrasco, que lhe matava sempre o amor.
Hoje teve que fugir da guerra. Não teve tempo de lhe dizer que fugiu. Que embarcou sem saber se existia mar para além da imaginação e da criação. Não crescem as crianças na guerra, não crescem os amores na terra.
Fugir… fugir para não…morrer… fugir…viver… sabe-se lá o que existe para lá desta fronteira… desta língua de terra entre viver e morrer.

Para onde te escrevo agora, amor?

Deixa-te estar a meu lado e não mais te vás embora.
Uma carta sem destino numa folha a mais de outono, que não quer cair da árvore. Um amor que parece vadio, numa noite dormida ao relento. Estas palavras esborratadas neste papel pardo, parecem um fardo, de quem habituado a amar à distância, parece imberbe neste amor sem terra própria.
Escrevo mil cartas, e envio-te para todos os destinos que conheço.

Não escrevo para a morte que a morte não te colheu. Não te escolheu que a morte não tem destino.

Não te esqueças de me responder. São apenas mil destinos e isso são lugares parcos deste nosso amor, distante.


Nuno Miranda de Torres

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Diário de um pai - dia 18 (04.09.2015)

Em nada existe um fim

Esta é a última folha deste diário. As últimas folhas são sempre pouco escritas, mas têm a pressão de apresentarem um fim para a história.
Estou contente de a escrever. Comecei este diário e troquei sempre os textos pela sensação de perda, que o olhar para um berço vazio me dava. Comecei, sem saber como acabaria.
Chorei muito e vi os da minha família chorarem muito.
Mas nas últimas folhas nunca se chora verdadeiramente. A capa é dura e não humedece as lágrimas.
Trazer à terra.
Salvar.
Cuidar.
E deixá-los voar.
Os filhos regressam sempre a casa.

Amanha serei mais homem. Pode ser que consiga unificar a família. E todos estão vivos e todos estão bem. Amanhã serei mais homem do que fui estes dezoito dias consecutivos.
Descansaremos hoje das trincheiras, que amanhã começaremos um novo livro. Temos que escolher o título e isso não e fácil, porque não o podemos alterar a meio.
Afinal as últimas folhas podem não ser… pouco escritas…como podem não ter que ter final nenhum, porque em nada existe um fim.

Nuno Miranda de Torres 





Nem uma última folha de um livro me chegaria para agradecer o que fizeram por mim. A minha mulher, deu-me coragem, o meu filho mais velho deu-me força de continuar a viver. A minha família chorou comigo e deixou-me chorar sozinho. O meu melhor amigo, deu-me amizade. Os meus outros amigos deram-me o que me faltava. Preocuparam-se comigo e com toda a minha família.
Os médicos e as enfermeiras deram-me o meu filho de volta. E isso é quase tudo o que cabe num coração de um pai.
É por tudo isto, que uma pequena folha em branco, mesmo que seja a última do livro, nunca será suficiente para vos mostrar a minha gratidão.

Obrigado!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 17 (03.09.2015)

Lamber as lágrimas que escorrerem para o chão

Hoje limparam-te as feridas e arranjaram-te as cicatrizes das suturações. Arranjaram-te o corpo das maldades sofridas, que os corpos consolam as mães, quando os filhos regressam a casa. Parece que chegarás a casa, lá para o fim-de-semana. Já não vão a tempo de te secar as lágrimas. Essas verteram na alma e só num daqueles verões mais quentes é que poderão evaporar, de tanto que elas choraram.

Sofro por cada uma dessas cicatrizes que te decoram o corpo. Não te consegui livrar disso. E os pais sofrem quando não livram os filhos de sofrer. São marcas, que já não te doem e que talvez nunca me deixarão de doer. São marcas, que apenas passam do corpo. Constantes memórias que a vida pode ser sempre pior, do que a própria memória se pode lembrar.
Não te consegui livrar disso. Um dia saberás que não estava nas minhas mãos. Saberás que tê-las-ia amputado, se eu soubesse que não sofrerias um só segundo.

Mas não te consegui livrar disso.

Em casa também te limparemos as feridas. As do corpo e a outras que não sangram. As tuas e as nossas. As feridas limpam-se em família. Aqui saberemos de cor a cor do teu sangue. Lamberemos as lágrimas que escorrerem para o chão. Apanharemos os teus pedaços e saberemos uni-los peça por peça. Rejubilamos sempre quando a última peça encaixa.

Não te consegui livrar disso. Desculpa.


Resta-me abraçar-te e proteger-te com os braços. Ficaremos assim, até ao dia em que as tuas lágrimas já não escorrerem para o chão. Pode ser que eu morra, antes que isso aconteça. Quero que continues a caminhar em frente, sem olhar para trás e nunca deixes que as tuas lágrimas se voltem a estatelar no chão.Se isso acontecer, estarei lá para lambê-las.

Nuno Miranda de Torres

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 16 (02.09.2015)

O Pisco

Quando cheguei ao quarto do hospital, estavas vestido a rigor, quem sabe para receber de gala este teu pai que tanto te gosta de ver. Na janela do quarto, do lado de fora, um pisco embalava-te com uma generosa melodia.
Por serem os dois tão pequenos, admiravam-se, rodando a cabeça, cada vez que um se mexia. Pareceu-me uma dança de pequenos seres dependentes, que se pendiam um ao outro. Um voava, o outro sonhava. O pisco assustava-se com os teus movimentos, mas voltava sempre chilreando as últimas novas, próprias de quem voa e vê tudo lá de cima. Tu acalmavas sempre que ele chegava ao teu parapeito, e ensinava-lo a crescer e a cuidar da alma dos outros.
Habituado a histórias de cavaleiros e dragões, hoje começámos a escrever as primeiras letras de uma história de amizade entre um pássaro e um sonhador.


 Talvez por serem os dois tão pequenos, sonharam os dois tão alto. 

Nuno Miranda de Torres

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 15 (01.09.2015)

A Coroa

Dizem os ilustres que a coroa serve para coroar. Vivemos nós um pouco mais abaixo desse céu limítrofe dos deuses, em que a coroa serve para parar o tempo.
Solto-a da caixa e do aro, e o tempo deixa de envelhecer. É assim, que no meu relógio velho e cansado, atrasado e descompassado, ainda me sinto um rei, por mandar parar o tempo quando quero.
No reino das coroas e das coroações, ninguém sabe parar o tempo. Sabem vivê-lo, mas não o sabem parar.
E porque quererão, estes pobres camponeses, parar o tempo?

Porque quando se tem um filho nos braços, é bom que a coroa esteja solta, e que as horas não vivam os dias, como se os tempos não pudessem ser parados.

Dos reinos das horas a fio, apenas quero uma pequena coroa brilhante para coroar o meu pequeno príncipe, que agora, como dantes, está nos meus braços, sem que os minutos tivessem passado.

Nuno Miranda de Torres

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 14 (31.08.2015)

Até amanhã!

Nunca as palavras fizeram tanto sentido. Nunca os sentidos me calaram tanto as palavras.
Há toques, retoques, ambições, desilusões, há pessoas, virtudes, sarilhos, há mais pessoas e antes de mim, os filhos.
Uma mão sobreposta numa pequena cabeça, de onde submergia um manto de cabelo de seda. Os olhos abertos, pediam carinhosamente o afecto. Um dedo que ia deslizando verticalmente na pequena palma de testa. Os olhos iam-se fechando à medida que o dedo lhe ia indicando o caminho. Os sussurros ao ouvido marcavam indelével o amor que se tem por um filho. O que lhe sussurrei é um segredo nosso, que levará no cerrar dos seus olhos.

Nunca as palavras foram tão difíceis de escrever. Nunca os sentidos me gatafunharam tanto os cadernos em branco.
Cheiro-te antes de me despedir. Inspiro-te e espero que isso me inspire. Tentarei não respirar mais até ao nosso reencontro. Este respirar ofegante que me gasta o teu cheiro.

Hoje é ainda uma genuíno amor unidireccional e sabes lá o que isso é bom para nos amarmos a nós próprios. Amanhã saberás o que é amar para além do regaço da mãe e do fechar de olhos do pai. Amanhã saberás amar, ainda mais que hoje.

Até amanhã, filho! 

Nuno Miranda de Torres


domingo, 30 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 13 (30.08.2015)

Canguru


Mais bonito que ver um filho deitado no peito de uma mãe, como se toda a sua prematura vida tivesse sido feita ali, é ver a dedicação de uma mãe, aflita, em cuidar do seu filho, como se toda a sua vida tivesse sido encaminhada para ali.

É do sangue. Não cheira a sangue, mas sente-se o correr nas veias. Eles sentem-se um ao outro como se a vida dependesse daquele contacto.
Pele com pele, coração com coração, o calor ensandece de tanto aquecer. Os miúdos crescem e tornam-se maduros. As mães choram, mas tornam-se futuros. Os pais também choram, e de emoção, tornam-se mais duros.

Ele abriu os pequenos olhos de amora. Procurou as sombras da mãe. Ela sussurrou-lhe ao ouvido, o caminho de se encontrar uma mãe. Descansado, voltou a aninhar-se naquele lugar de onde nunca devia ter saído.

Foi assim que continuaram a felicidade, pela tarde fora. 

Nuno Miranda de Torres

sábado, 29 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 12 (29.08.2015)

Ser capaz

Hoje, pela primeira vez, falaram-me em levar o meu filho para casa.
Não havia nada no imediato que eu desejasse mais, mas imiscuiu-se em mim um pânico interno, que me fez paralisar as pernas durante grande parte do dia. Foi medo de falhar nos cuidados primários. Foi medo que ele se venha a engasgar. Foi medo que se repita o pneumotórax, foi medo de não ser capaz.
Foi medo aquilo que senti, o mais puro dos medos que os homens sentem, quando são egoístas.

O olhar do meu filho mais velho disse-me que os pais devem ser fortes, devem combater os dragões e salvar as princesas; dar o corpo às balas, atravessar os mares mais inóspitos e nunca, mas nunca, devem deixar ninguém para trás.

O que eu dava para ter a coragem de uma criança.

Aprendi que os homens conscientes podem ter medo… os inconscientes devem ter medo… e que eu ainda não tive a oportunidade de me classificar…

e os pais… matarão os papões, os mauzões, os monstros e os medos. E um pai de verdade…claro que é capaz…


- o meu pai é sempre capaz! – disse um filho de um pai capaz

Nuno Miranda de Torres

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 11 (28.08.2015)

Aperaltado


De barba imaculadamente feita, banho tomado e um cheiro neutro no pescoço, que embora neutro, impressionava pela suavidade e bom gosto.
Vesti roupa lavada e embora a idade me tenha levado parte do cabelo, penteei meticulosamente o que me restava, efectuando um geométrico risco ao lado.
Olhei-me várias vezes ao espelho antes de sair. Coloquei creme hidratante na cara, tornando-a mais suave.
Endireitei os ombros. Doeram-me as articulações que há muito estavam habituadas à posição curvilínea e com pouco movimento.
Engraxei os sapatos e estreei umas meias de algodão.  

Olhei-me novamente ao espelho. Pareceu-me bem e adequado para o reencontro de hoje.
Provavelmente estaria de novo com o meu filho ao colo, e por isso, não poderia correr o risco de não estar no meu melhor.


Cuidamos de nós, na mesma medida em que cuidam da nossa alma.

Nuno Miranda de Torres

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 10 (27.08.2015)

Parar o tempo


Sei que as restantes pessoas do mundo continuam a respirar. Sei, porque as ouço e elas se fazem ouvir. A vida continua a respirar e o seu ofegar polipneico como que não me deixa sossegar; neste momento que eu precisava que a apneia do relógio badalasse apenas duas vezes por dia.

Hoje o tempo parou.

De braços sobrepostos imitando um ninho de cuco, recebi hoje, pela primeira vez, o meu filho no colo. Sem tubos, sem drenos e sem ventilador, foram apenas aqueles dois quilos de gente e eu, numa simbiose perfeita de dependência. Ele precisava do meu colo, eu precisava da vida dele. Enroscou-se como só um filho se sabe enroscar. Abracei-o, como só um pai sabe abraçar.

Hoje o tempo parou.


Pena que não me deixam ter tempo de parar o tempo para sempre, neste minuto em que ele se enroscou em mim.

Nuno Miranda de Torres

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 9 (26.08.2015)

De mãos dadas

Na última hora, o pequeno Tiago esteve agarrado ao dedo mais pequeno da mãe. Uma pequena mão, num pequeno dedo, mas uma cumplicidade maior do que aquelas duas mãos juntas conseguirão agarrar, durante uma vida inteira.
No final da hora, ela tentou despedir-se, soçobrando a mão na incubadora. Ele apertou com mais força e ela ficou…

…talvez agarrada a ele para sempre.

De mãos dadas é sempre uma forma bonita de se começar uma vida. Só acabará quando uma das mãos deixar de fazer força e apertar.


Só por esta hora de maternidade, já tudo valeu a pena.

Nuno Miranda de Torres

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 8 (25.08.2015)

O choro do silêncio

Hoje deixaram-no sossegado. Ao oitavo dia, também ele precisou de descansar.

Chorou em silêncio durante a maior parte do dia. O ventilador não o deixa emitir os característicos sons da dor. Por momentos, também eu gostaria que um ventilador calasse a minha dor. Tento, mas não consigo chorar em silêncio, que isso é tarefa para os magnânimos.

Nuno Miranda de Torres 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 7 (24.08.2015)

Aquela mulher junta da incubadora



Passo cada vez menos tempo naquele hospital, não porque esteja a desistir, mas porque me vão faltando as forças de resistir. Nunca desistirei, mas terei o direito de baixar momentaneamente os braços. Sinto e sei que não tenho esse direito, mas a verdade é que eles não se erguem de maneira nenhuma. Nestes dias mais duros, resta-me a observação do que me rodeia.

Hoje, de longe, mais não fiz que admirar a coragem de uma mãe. Em pé, com dores, não largou a incubadora do filho. Falou com os médicos, opinou, nunca desistiu, chorou, chorou muito como os que têm a verdadeira dor, mas reergueu-se cada vez mais forte. Deu força aos humanos, pediu força aos sobre-humanos sem nunca largar aquele que mais precisou de si.
Invejei a força daquela mulher. Mulher de missões que fará o que estiver ao seu alcance, mesmo que nestes casos, o alcance não seja maior que o comprimento dos braços totalmente estendidos para o céu.

Levantei-me a custo e aproximei-me dela. Queria de certa forma estar perto desse alguém que não desiste. Os olhos tendem a trair-me, e a sensação de nebulosidade dificulta-me a percepção de tudo o que não é sonho ou ilusão.
Usei as mãos para lhe tactear a cara. Senti-lhe o ofegar da respiração e dela vinha uma confiança fortificada que só vem de uma mãe.



Mais perto dela percebi, que aquela grande mulher era a mãe do meu filho. E nesse instante relembrei-me conscientemente que a venero e o quanto gosto dela.

Nuno Miranda de Torres

domingo, 23 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 6 (23.08.2015)

Nova espécie

Trago para casa aquele cheiro a hospital. Não me sai das mãos, das narinas e de dentro de mim. Trago os apitos sonoros e os nomes das enfermeiras. Trago o esgar de preocupação das médicas e também a sensação de que se estão a tornar impotentes. Só não trago, o que devia trazer. Trago uma enorme sensação de culpa de me vir embora e essa custa a sair. Culpo-me até de respirar livremente, coisa que o meu filho não consegue fazer. 

Sinto-me mau pai pelo facto de vir para casa. Sinto-me mau pai de ver televisão. Sinto-me mau pai, porque de vez em quando consigo sorrir. Sinto-me mau pai…por ainda não ser realmente um pai de verdade.

Todos me dizem que é um processo lento, mas para mim já passou mais tempo do que eu acharia que conseguia resistir.
Sei mudar a fralda, sei jogar à bola, sei cuidar de feridas. Apenas não sei cuidar de um maldito pneumotórax que teima em não cicatrizar.

Os ombros encurvam, o pescoço baixa ligeiramente, os olhos afundam e os braços caiem inertes.

Talvez seja mesmo uma nova espécie de homem que aqui se inicia. 

Nuno Miranda de Torres

sábado, 22 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 5 (22.08.2015)

Clampear a destruição sucessiva de esperança



Hoje foi um dia melhor que o de ontem.
Apenas isso… um dia melhor que o de ontem
… e que para mim me parece tanto.

Um homem neste estado, aprende a anestesiar-se das derrotas. Pena que o corpo também não sinta as vitórias. Estado profundo de dormência de onde não ecoa coragem, nem depressão.


Das mamas das mulheres extraem-se nomes, notas, trejeitos, futuros e carreiras de sucesso infindáveis. Para elas é missão, para os médicos é leite e para mim é coragem desmedida. Tirar leite para um filho, sem saber se ele vai ser bebido, é cuidar sem retorno de gratidão.

Alguém tem que clampear a destruição sucessiva de esperança.

Hoje, alguém o conseguiu fazer.

Nuno Miranda de Torres

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 4 (21.08.2015)

O Quadro

Quase todas as pessoas vivem a sua própria sobrevivência ou a dos seus, como se contemplassem um quadro a uma distância de cinco centímetros. Distinguem-se as cores, mas não se percebem as formas nem os conteúdos.
Hoje decidimos chegar-nos uns metros para trás, em busca de perceber esta tela que se vai pintando, à medida que as lágrimas vão secando e nos deixam ver um pouco mais além.

Mesmo na mais pura das infelicidades, ninguém consegue chorar para sempre.

Fica o filho na trincheira, trago para casa uma mãe desconsolada. Embora desfigurado de peças, parece que o puzzle se começa a estruturar pelos cantos. Falta o miolo, falta o encanto de encaixar a última peça.


A casa estava fria e escura. Onde coloco esta alcofa vazia?

Nuno Miranda de Torres

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Diário de um pai à rasca - dia 3 (20-08-2013)

A montanha russa

As boas notícias parecem que duram minutos e as más duram dias inteiros. Agarrado ao oscilar do peito do meu filho, fixo-o como se fosse o meu próprio bater do coração.
Pelo orvalho, gritei de alegria porque o pulmão estava completamente expandido, dez minutos depois desenlaço-me das cordas que me envolvem em puro desespero. Colocaram hoje um segundo dreno no peito do meu filho, para aspirar um pedaço de ar mais pequeno do que eu preciso, para viver apenas mais um segundo.

E amanhã onde estarei? Em cima ou em baixo, nas nuvens ou enterrado?

Estarei onde me colocarem. Estilo marioneta velha, donde pendem fios esgaçados de impotência.


Estarei onde me colocarem…
Estarei onde o colocarem…

Nuno Miranda de Torres

Diário de um pai - dia 2 (19.08.2015)

A nave espacial

A luta pela sobrevivência, talvez seja a luta mais sem escrúpulos que se pode travar. São constantes as apunhaladas nas costas sem aviso prévio. São ataques de cobardia que os homens não estão habituados a enfrentar.

Agora imagine-se um pai a lutar pela sobrevivência de um filho. Esta luta, trincheira desgraçada que nos tira os sonhos, que faz chorar homens vergados pelo medo de não ser capaz.
Como é que se ama um filho atrás de uma incubadora? Não se toca, não se abraça, não se dá de mamar, não se põe a arrotar… não se sabe se vai viver, apetece-nos morrer. Ama-se chorando às escondidas.

Máquina do tempo desgraçada que nos projecta o futuro; o presente é um cone de luz intensa sem barreiras nem degraus.
A nave espacial está pronta para descolar. Liguem os tubos, controlem o oxigénio, as pulsações e as saturações. Coloquem a morfina e espetem um tubo no tórax para drenar esse maldito ar que foi para a pleura.

A nave arrancou.

Sabemos que viajamos nela, agarrados pelos polegares.

Nem sei a força com que me devo agarrar. Se ao menos soubesse o tempo da viagem. Tenho medo de me agarrar com muita força e não aguentar o tempo total da viagem. Tenho medo de me agarrar ao de leve e ser cuspido. 

Tenho medo. 
Tenho mesmo muito medo.


Nuno Miranda de Torres