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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Medo


Não tenhas medo que o medo
existe para teres medo do medo
que ele dá

foi ele que criou o medo do escuro
das alturas do medo em que a coragem
falece de excesso de medo que ele dá

tremer de medo de ouvir o ranger
dos dentes de ter medo e ainda cedo
tremer do medo de ser já

ele que me dá medo terá ele medo?
do meu medo de ter medo
se eu tiver medo serei mais um
assustado com o medo que ele dá
com o medo de ser já

mais medo
mais cedo
que me dê o temor
de medo sem a dor
de não ter medo do que for
de não ter medo que amanhã
seja um dia mais pequeno
que o medo de ser hoje
na grandeza de um aceno

despede-te do medo
do mundo de ti
não voltes revoltes
que ter medo
deixo na caixa do segredo
que ter medo
faz parte do enredo
de ser homem

E.M. Valmonte

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Circo #



O rapaz que se enrolava como um bicho-de-conta era a atração do circo, sempre que faltava o trapezista sem pernas ou a gorda que vomitava ovos cozidos. O rapaz aprendeu a enrolar-se como um bicho-de-conta, porque passou muito tempo a observá-los. Fazia um círculo na areia e colocava os bichos-de-conta, um a um, como se se tratasse de um coliseu e ele o dono daqueles gladiadores. Erguia o punho no ar, decidindo sobre a vida e a morte do bicho-de-conta derrotado. Decidiu sempre sobre a vida. Recolhia o bicho-de-conta enrolado, encaminhava-o para uma caixa de fósforos diferente, como que castigando a falta de coragem e a derrota. Aprendera estes castigos com os seus pais, que o castigavam no quarto isolado, sempre que ele não conseguira as moedas necessárias para o pão e o leite do dia. Também ele se enrolava nesses dias de castigo. 

E.M. Valmonte

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Um farol de noite

cai copiosamente a noite
por entre a espuma dos dias
mete medo o nosso medo
por vezes está escuro cá dentro

mete medo o medo dos outros
por vezes está escuro lá fora
por entre o rebombar da noite
cai docemente o que foi dia

faço girar a luz
acesa por dentro
que se guiem por fora
os marinheiros de outrora

espero que não atolem
não raspem o casco na rocha
de tanto sangrar
há marinheiros que morrem

mete medo o nosso medo
acendemos a luz de noite
ilumina a alma prata do cobarde
coragem ao homem que se afoite

e depois acalma a fúria
baixam as ondas as defesas
erguem-se os nossos filhos
à avidez do frio e dos remoinhos

aprender que de dia
não se erguem faróis
são como campos de girassóis
que rodopiam na apatia

de não saber
ser...

noite

E.M.Valmont