Os bêbados costumam aguentar melhor a falta de amor do que os sóbrios. Nem este homem, que mal se sustinha
de pé, conseguiu rasgar aquele bilhete de amor que tanto o tem feito sofrer.
Amassou-o, mandou-o ao chão e pisou-o, como sempre pisara as beatas dos cigarros
que o acompanharam no tempo e que tanto prazer lhe deram. Ele sabe de vinho
como sabe de amar, e sabe também que não se pisam os bilhetes de amor, que não é
por pisar que lhe vai limpar aquele ardor igual ao de um vinho carrascão.
Virou-lhe as costas fingindo indiferença, o bilhete e o amor que esmoreçam no
chão, mas fez-lhe diferença quando o vento soprou mais forte e o quis levar
consigo. Agachou-se e sem que ninguém o visse, voltou a apanhá-lo como se se
tratasse de um pássaro que ainda não aprendera a voar. Alisou de novo o bilhete
de amor, como se lembrava de fazer, naquelas noites de natal, com as pratas dos
chocolates em forma de sino. Beijou-o e voltou a colocá-lo no bolso do casaco,
roto de tanto entra e sai daquele pedaço de papel. Ele sabia que só se deviam
pisar os bilhetes de amor que se quisessem voltar a guardar, que para destruir
para sempre é melhor queimá-los, como ele sempre fez com as beatas e os
cigarros, mesmo depois destes lhe terem dado tanto prazer no passado.
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sexta-feira, 24 de março de 2017
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Lamber uma parte do tempo
Fosse
o doce de te lamber o corpo o mesmo
de
lamber o tempo que esse corpo passou
doce
que se fosse tempo caramelo de corpo
nunca
morto sempre doce que não me destroce
o
tempo que demorei a lambê-lo ou a memória
que
não condene a mim a ti e a história de pena e estilete
crava
na pele as rugas o áspero que se repete
não
fosse o tempo um monte de repetes
caídos
em mim em ti e na história
fosse
o doce de te lamber o corpo o mesmo
de
te dar o tempo
que
preciso
de
te amar
E.M. Valmonte
domingo, 25 de janeiro de 2015
Lenço de limpar lágrimas de amores infinitos
Correm
lágrimas do teu rosto, dos teus para os meus
do
mesmo desgosto, da mesma maresia não queria
vergonha
de ensopar o lenço ao homem pequeno
choro
de parco senso coragem de o procurar no feno
ao
homem ao choro coro de vozes intermitentes
tem
medo de tremer sem dentes cego vago
chorar
de estupidez inunda mais que a dor
cravada
no peito o sabor de saber a doer de morrer
tão
devagar sem amar que a morte se esqueceu
que
também doeu daquela dor matina do ouro
prata
platina da esmola que fez comer os olhos
do
teus para os meus última lágrima bufar do touro
investe
porque se despe à noite que não dormiu
despe-se
deita-se escorre o último lamento
morreu
de morrer de sofrimento de ti de outro
corpo
morto enxaguo os restos dos podres dos
pobres
sem
lenço de limpar lágrimas de amores infinitos
E.M. Valmonte
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
A Clara partiu o braço quando fugia dos dragões.
Se eu fosse um
rapaz de verdade, tinha uma espada de madeira e defendia a única princesa do
reino. Tínhamos uma casa na árvore e uma escada de liamba. O vento batia-lhe
nos cabelos e trazia-me o cheiro a amêndoa. Ajudava-a a descer pelo tronco,
quando a mãe a chamava para o jantar. A espada de madeira, presa nas presilhas
das calças, dificultava a saída airosa do reino e sempre me deu um ar
atabalhoado ao entregar a princesa ao mundo dos crescidos. Ela, de vestidos de
abas largas, movia-se sempre como se voasse e cada dia que passava, por cada
dente frontal que me caía, mais se elevava o desejo e a vergonha de me tornar o
seu único rei, para todo o sempre.
Trocávamos o
lanche como os crescidos trocam o desejo de estar juntos. Afinal era amor, mesmo
que fosse em ponto pequeno. Afinal era amor…
Um dia, Jaime e
os restantes rapazes atacaram o nosso castelo. Desembainhei a espada, tirei a
flor da minha lapela, fechei-a na mão de Clara e corri, gritando como um herói
cheio de coragem. Estava disposto a matar e também por isso, sabia que podia
morrer.
Lutei como nunca
o fizera antes. Clara tropeçara a fugir e partira o braço. Defendera-a, como se
defende a vergonha do dia seguinte. Talvez por isso, tenha sido eu o primeiro a
escrever-lhe no gesso do braço. “Uma espada de madeira, também defende um reino”. Clara abriu a mão, devolvendo-me a flor à lapela.
E.M Valmonte
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Fatias de noite
Entram fatias inteiras de noite
pelos
buracos, dos buracos dos estores
fossem
aqueles buracos, escavados dos amores
fundeados
à picareta, ao murro e ao açoite
imperialistas,
as pás que desaguam em vento,
trauteiam
ritmos sincopados sobre o corpo
nu,
ferido, curvo e revolto ao desalento
rompem-se
dos dedos, os anéis ao metacarpo
pedaços
inteiros de claras de noite
a
manhã mais cinzenta ao ópio absorto
de
parir o dia, num leito que se aceite
na
ferida do corpo, larvas que sugam o que resta
do
resto da festa, na parte de lá da gangrena
a
parte que dá pena, do círculo à aresta
parar
a sesta ao inerte que não presta
em
deixar morrer a noite
e
todo este amor que se escapa pela pequena fresta
da
janela, e dos buracos,
dos
buracos dos estores
E.M. Valmonte
terça-feira, 3 de junho de 2014
Rir de um palhaço
Sabia que daquela maneira, não te
conquistaria nunca. Seria muito difícil que te fizesse desviar o olhar, mesmo
que eu te olhasse incessantemente, em busca daquilo que outrora foste. Se
alguma vez me olhasses, mesmo que de relance, seria fruto da chacota dos outros e não da tua vontade de me contemplar. Do
fundo das ciclópicas gargalhadas dos teus pares, olhaste-me, não nos olhos, mas
superficialmente, como habitualmente se costuma olhar para um palhaço. E também
te riste… mas não gargalhaste. O tempo parecia ter parado. Tirei uma flor
da lapela e entreguei-ta. Tropecei, caí e desmoronei também o meu disfarce.
Todos riram. Afinal eu era um palhaço e os palhaços têm que fazer rir, cair, desmontar as angústias dos outros e as culpas das crianças. Só não podem amar, que isso é coisa séria. Deixaste
a flor em cima do banco. Também eu a deixei lá, porque não preciso dela para
ser palhaço. Servia apenas para ser mais fácil amar, mas para ser palhaço, não
é preciso nem flor, nem amor.
E.M. Valmonte
terça-feira, 13 de maio de 2014
Depois de uma guerra
Os homens,
depois de uma guerra, precisam de amor. Quando o sol se começa a empalidecer,
vai com ele também a vontade de estar sozinho. Por muita coragem que brote dos
homens, todos precisam de um lar. Precisam de um ventre onde deitar a cabeça e de
alguém que lhes estremunhe os cabelos, que outrora dançaram ao vento, enquanto
se limpam as feridas.
Os braços
abraçam os filhos com força. Sente-se a felicidade, nas gargalhadas das
crianças. Os homens têm sempre medo que a felicidade se acabe. É por isso que
abraçam com mais força. As espadas
trespassam os homens. As palavras matam famílias. No silêncio, saboreia-se a
mais límpida felicidade…
E.M.Valmonte
| fotografia de E.M.Valmonte |
sexta-feira, 14 de março de 2014
subtilezas do amor
afinal o amor também é amar.
é amar, mesmo
quando não apetece amar mais ninguém, para além de nós.E.M. Valmont
sábado, 1 de março de 2014
Quando sofreres de solidão
Ainda te escrevo cartas. Como as
que te escrevia, quando não se morria de desgosto. Gosto de pensar que gostas de
receber correio. Gosto de pensar que ainda gostas de mim, mesmo que eu esteja
dentro de uma carta manuscrita e não te possa agarrar e lamber, como te lambia,
quando não se morria de desgosto. Sei que esta carta pode ser recebida pelo
homem com quem vives e que isso vos poderá separar, mesmo que eu não possa sair
deste maldito envelope. É por isso que te escrevo uma carta manuscrita, comigo
lá dentro. Gosto de te ver furiosa, como nos dias em que não se morria de
desgosto. Não gosto de pensar que esse homem te toca, mesmo que ao de leve. Sei
que enquanto me estiveres a ler, não terás coragem de ser tocada. Também por
isso, a minha carta é tão extensa. Para que ele não te toque da mesma forma encantadora
que eu te tocava, quando não se morria de desgosto. Mas agora lê-me. Fá-lo
devagarinho, como se estivesses a morrer de desgosto. Será de novo o nosso
tempo. Será de novo uma tarde de calor, igual a muitas outras que passámos de
mão dada, quando era esse insidioso desgosto que morria por nós. Lê-me e finge
que sofres de solidão. Não tenho a certeza que me abras o envelope. Nem que me
queiras ler de novo. Não tenho a certeza que alguma vez me tenhas lido.
Ardeste-me sempre na fogueira mais próxima. Sinto que me voltaste a amarrotar.
Mais uma bola de papel encestada na lareira. Morri novamente…desta vez de
desgosto. Voltarei a escrever-me, quando sofreres de solidão.
E.M.Valmont
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