sexta-feira, 29 de novembro de 2013

quando deus se ajoelhou para venerar




os homens sem ídolos

aprendem o pouco

que a consciência ordena

será pena

se idolatrares deus

será medo

se idolatrares um poeta



gosto de deuses que escrevem poemas

que não me salvam

mas também não me matam



eles

que morrem quando se matam



efrem miranda

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Eu e os outros

eu e os meus pequenos
eus
embirrantes seres
que gargalham
que se embebedam
amam desmesuradamente
os seus próprios
eus
mas também os outros
que mais não fazem
que bebericar da alma
e do meu próprio eu
sugam-me
como se eu fosse um bebedouro
não me tocam
mas sorvem-me
e cospem
não a mim
mas o que resta
dos pensamentos de mim


efrem miranda

sábado, 16 de novembro de 2013

Os homens não choram

chorarei todas as lágrimas
que se chorar numa vida
a vida que me afogará
numa única lágrima tua



efrem miranda

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A esperança dos contos



Disseram-me que acabaram por matar Quixote. Acho que foi obra da prostituta, da drogada e daquele director de televisão, que tem uma equação simples de conquistar exércitos de devoradores de lugares-comuns.

No lugar onde devia estar Quixote, está agora uma sombra confessa do diabo. 

Conseguirão os novos contos que chegam amanhã, abrir as coçadas cortinas que postergam a grandeza de um escritor?


No lugar onde devia estar Quixote, devia estar Quixote.


efrem miranda

domingo, 6 de outubro de 2013

Versos de um metro e oitenta



versos presos de fato engomado                         
rimam hirtos os vincos às bainhas    
às vontades, à honra e às medalhas 
do circunspeto trato ensaiado           

subir de costas os degraus vagos     
saudosa coragem a rebate                
da voz, a rítmica do embate
na curta viagem dos amigos            
                                                        

os outros versos
que se querem livres
que de versos
são mulheres
que de mulheres
são bonitas
não rimam
inspiram, o perfume
de não ter tamanho
de ser desenho
livre
são os versos
que de versos
apenas têm a grandeza
de poder não ser poema

efrem miranda

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mesmo que eu

Para onde foste?
para nascer
precisas de uma mãe
essa indómita  arrogância
pensares que consegues nascer sozinho
sem mãe
sem pai
mesmo que não precises de aconchego
ou que eu te diga boa noite
foi por felicidade
que te imaginei
que te desenhei
eu não queria crescer por ti
mesmo que não me quisesses dar a mão
nos primeiros passos
mesmo não querendo que o meu lenço
te enxugasse as primeiras lágrimas
mesmo que eu assistisse de longe
não precisavas de partir
nem de infligir tanta dor
faz doer
não te ver crescer
para onde foste?
nem sequer me disseste
de que cor querias que te pintasse o quarto.
efrem miranda

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Rastejar no restolho



acontece sempre de manhã…
ainda nem o orvalho acordou
já a avó perfuma os sentidos
trinados pelos acordes garridos

…de um galo que se quis perneta

uma estria de trigo
ao canto musculado da boca
a bússola desnorteada de um campo
de cotovelos surrados no tampo

…da velha mesa serrada no pé

o carvão do lápis suja-me a memória
o papel pardo, debota vivências
embrulha-se nele o amor de um homem
é apenas um coração que bate
num corpo
podia ser o manto
no dorso de um cão vadio

…a quem lhe tinham partido uma perna

do outro lado da inocência
eis que se vislumbra o campanário
aguardam no confessionário
os militantes segredos imaginários

…a um padre que ficara coxo na guerra

um último olhar agendado
antes do carinhoso copo de leite
calma a noite se vai deitando
uma brisa de vez em quando


…balanceia uma flor sem caule

para onde vai a sombra
do empedrado?
aquela que se vê do terraço
manchas campónias suam da terra
sujam de pó as mortes da única guerra

…onde não se entoam os canhões.



efrem miranda

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Trago-te

se não vens
então
eu nunca mais volto

se vieres
voltarei mais tarde

levo-te sem saber se voltas