quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Velho de Navalha no Bolso



O velho segredou
a antiga verdade
que a liberdade
nunca gostou

seremos livres
quando os homens souberem
a que sabe o amargo
da inóspita alegria
de quem nos defendia
[errata] de quem nos comia
a própria mão que nos acaricia

de navalha no bolso
o velho mata
a fome dos novos
olha-se nos olhos
os gritos mudos dos amantes
mentem os sorrisos
as vaidades errantes
da pequenez dos governantes

coseram mal as asas
descolam-se do corpo
quando pinga o suor
daquele que tentou voar
daquele que tentou viver

acabou por morrer
por não saber cair
acabou por morrer
por não saber



efrem miranda

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Homem-Folha




se eu fosse um homem-folha
viesse o vento e me deixasse cair
no campo de flores coloridas
que as tuas mãos
escavavam
plantavam
regavam
podavam
colherias mais tarde
mensagens de ternura
cravadas no tronco
de quem fizeste árvore

nas minhas raízes
correrá o que me ensinaste
a minha copa será das mais altas
como foram os teus desejos
na sua sombra, o reflexo
de quem brindou com sorrisos
os meus vícios de querer crescer

amanhã estarei noutro jardim
serão então as minhas folhas
que te entrarão na janela
e num rodopio constante
voltaremos a brincar
apenas o tempo
que demora a saudade

a saudade do teu regador
a saudade das tuas mãos
a saudade da tua água
a saudade da tua terra
a saudade do teu jardim

a saudade de ti



(*) foi assim que o meu filho se despediu das suas educadoras.