Ainda não sei quando morrer. Por
enquanto, vou descendo o monte até à vila, nesta estúpida incerteza de não
saber.
É de noite e de noite não se deve
morrer. É verão e no verão não se deve morrer. É quinta-feira e os sinos
começaram a tocar, desolando-me o coração, como se morrer fosse para uma quinta-feira.
Estou sozinho e nunca se morre
sozinho.
Na vila, os sinos calam-se para
mim, como se cala o resto da vila e o resto de mim.
Morri, mesmo sem querer fazê-lo.
E sabiam que eu não o queria de noite, de verão, e tampouco a uma quinta-feira.
Ontem gostava de ter passeado na
vila, jogado às damas com o senhor Álvaro, apreciado os alperces da banca da
dona Julieta e quem sabe, roubado um beijo à Júlia, que há tanto tempo o ando
para fazer. Sei que ela me olha com desejo. Eu teria sido o seu primeiro homem.
Para mim, ela seria o meu primeiro beijo. Nunca o fiz, porque sempre tive medo.
Também sempre tive medo de
morrer.
efrem miranda
efrem miranda