quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ontem, gostava de ter apreciado os alperces da dona Julieta



Ainda não sei quando morrer. Por enquanto, vou descendo o monte até à vila, nesta estúpida incerteza de não saber.

É de noite e de noite não se deve morrer. É verão e no verão não se deve morrer. É quinta-feira e os sinos começaram a tocar, desolando-me o coração, como se morrer fosse para uma quinta-feira.

Estou sozinho e nunca se morre sozinho.

Na vila, os sinos calam-se para mim, como se cala o resto da vila e o resto de mim.

Morri, mesmo sem querer fazê-lo. E sabiam que eu não o queria de noite, de verão, e tampouco a uma quinta-feira.


Ontem gostava de ter passeado na vila, jogado às damas com o senhor Álvaro, apreciado os alperces da banca da dona Julieta e quem sabe, roubado um beijo à Júlia, que há tanto tempo o ando para fazer. Sei que ela me olha com desejo. Eu teria sido o seu primeiro homem. Para mim, ela seria o meu primeiro beijo. Nunca o fiz, porque sempre tive medo. 
Também sempre tive medo de morrer.

efrem miranda

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Amam melhor as mulheres que pintam os lábios



de lábios pintados
pareces menos triste
de olhos fechados
parecem-te menos encantados
os punhos em riste
um país de ódios lançados
ao ego da besta

que coisa funesta
porque não me beijas?
desse teu  vermelho
tanto me beijas
como te revoltas

beija-me
vá lá!
beija-me com força
com língua se necessário for
deixa-me as marcas
que o tempo passou
deixa-me as memórias
que alguém se levantou

não se fazem homens
sem toques de lábios
pintados de vermelho
  
não se fazem homens
sem toques de lábios
pintados
  
não se fazem homens
sem toques de lábios
  
não se fazem homens
sem toques

amam melhor as mulheres
que pintam os lábios

efrem miranda

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Puro silêncio viciante

nunca o silêncio
será transbordante
as mãos que cultivam
submerjam as vozes
em vulvas banais

são tangentes ornamentais
ao centro do semblante
os mortos
não fazem silêncio
vivem nele
sem comungar

as máscaras agrilhoam o perdão
a festa dos estúpidos
não tem um fim
vive-se melhor de noite
sem a foice
de gume perfilado
atroando o histerismo

dos malditos sons…

da celebração do silêncio



efrem miranda

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Velho de Navalha no Bolso



O velho segredou
a antiga verdade
que a liberdade
nunca gostou

seremos livres
quando os homens souberem
a que sabe o amargo
da inóspita alegria
de quem nos defendia
[errata] de quem nos comia
a própria mão que nos acaricia

de navalha no bolso
o velho mata
a fome dos novos
olha-se nos olhos
os gritos mudos dos amantes
mentem os sorrisos
as vaidades errantes
da pequenez dos governantes

coseram mal as asas
descolam-se do corpo
quando pinga o suor
daquele que tentou voar
daquele que tentou viver

acabou por morrer
por não saber cair
acabou por morrer
por não saber



efrem miranda