domingo, 6 de outubro de 2013

Versos de um metro e oitenta



versos presos de fato engomado                         
rimam hirtos os vincos às bainhas    
às vontades, à honra e às medalhas 
do circunspeto trato ensaiado           

subir de costas os degraus vagos     
saudosa coragem a rebate                
da voz, a rítmica do embate
na curta viagem dos amigos            
                                                        

os outros versos
que se querem livres
que de versos
são mulheres
que de mulheres
são bonitas
não rimam
inspiram, o perfume
de não ter tamanho
de ser desenho
livre
são os versos
que de versos
apenas têm a grandeza
de poder não ser poema

efrem miranda

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mesmo que eu

Para onde foste?
para nascer
precisas de uma mãe
essa indómita  arrogância
pensares que consegues nascer sozinho
sem mãe
sem pai
mesmo que não precises de aconchego
ou que eu te diga boa noite
foi por felicidade
que te imaginei
que te desenhei
eu não queria crescer por ti
mesmo que não me quisesses dar a mão
nos primeiros passos
mesmo não querendo que o meu lenço
te enxugasse as primeiras lágrimas
mesmo que eu assistisse de longe
não precisavas de partir
nem de infligir tanta dor
faz doer
não te ver crescer
para onde foste?
nem sequer me disseste
de que cor querias que te pintasse o quarto.
efrem miranda

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Rastejar no restolho



acontece sempre de manhã…
ainda nem o orvalho acordou
já a avó perfuma os sentidos
trinados pelos acordes garridos

…de um galo que se quis perneta

uma estria de trigo
ao canto musculado da boca
a bússola desnorteada de um campo
de cotovelos surrados no tampo

…da velha mesa serrada no pé

o carvão do lápis suja-me a memória
o papel pardo, debota vivências
embrulha-se nele o amor de um homem
é apenas um coração que bate
num corpo
podia ser o manto
no dorso de um cão vadio

…a quem lhe tinham partido uma perna

do outro lado da inocência
eis que se vislumbra o campanário
aguardam no confessionário
os militantes segredos imaginários

…a um padre que ficara coxo na guerra

um último olhar agendado
antes do carinhoso copo de leite
calma a noite se vai deitando
uma brisa de vez em quando


…balanceia uma flor sem caule

para onde vai a sombra
do empedrado?
aquela que se vê do terraço
manchas campónias suam da terra
sujam de pó as mortes da única guerra

…onde não se entoam os canhões.



efrem miranda

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Trago-te

se não vens
então
eu nunca mais volto

se vieres
voltarei mais tarde

levo-te sem saber se voltas

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Indelével sabor a...



Quando agarrei o varão, ele gelou-me as mãos e quis penetrar-me o gelo no coração como se desconfiasse que eu não era digno para aquele deslize.

Deslizei rápido, acossado pelo ensurdecer da sirene que palrava ao desespero dos outros.

Ainda vi a minha imagem refletida no cromado do varão. Estava gélida como aliás deve ser uma imagem refletida da coragem.



Entrei no camião tanque com a pressa de quem sabe que os segundos desolam a esperança. Coube-me a janela. Não gosto de me sentar à janela. À janela, os meus olhos são os primeiros a derreter inolvidavelmente o choro das pessoas que perdem o tempo que demora a vida. São vidros, e dos vidros apenas se podem esperar infundados reflexos e algumas imagens de nós próprios.



 As árvores ainda estavam de pé. Os homens estavam vergados. Eu estive de pé durante várias horas, mas acabei por me vergar. Algumas árvores acabaram também por cair junto de mim. Apaixonámo-nos e fundimo-nos. Dos meus olhos planavam as fagulhas. Pedaços de cinza que trazem pedaços de cada um. Pedaços de cada um que vão em toda a minha memória.

Grato pela vida dos outros. A gratidão dos outros não me retorna a vida, nem a das árvores que se vergaram comigo.

Quando me levantaram, desfiz-me em cinza. As lágrimas não apagam mais fogo. Os meus pedaços de fuligem entram na boca dos outros, causando um indelével sabor a…


efrem miranda

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ontem, gostava de ter apreciado os alperces da dona Julieta



Ainda não sei quando morrer. Por enquanto, vou descendo o monte até à vila, nesta estúpida incerteza de não saber.

É de noite e de noite não se deve morrer. É verão e no verão não se deve morrer. É quinta-feira e os sinos começaram a tocar, desolando-me o coração, como se morrer fosse para uma quinta-feira.

Estou sozinho e nunca se morre sozinho.

Na vila, os sinos calam-se para mim, como se cala o resto da vila e o resto de mim.

Morri, mesmo sem querer fazê-lo. E sabiam que eu não o queria de noite, de verão, e tampouco a uma quinta-feira.


Ontem gostava de ter passeado na vila, jogado às damas com o senhor Álvaro, apreciado os alperces da banca da dona Julieta e quem sabe, roubado um beijo à Júlia, que há tanto tempo o ando para fazer. Sei que ela me olha com desejo. Eu teria sido o seu primeiro homem. Para mim, ela seria o meu primeiro beijo. Nunca o fiz, porque sempre tive medo. 
Também sempre tive medo de morrer.

efrem miranda

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Amam melhor as mulheres que pintam os lábios



de lábios pintados
pareces menos triste
de olhos fechados
parecem-te menos encantados
os punhos em riste
um país de ódios lançados
ao ego da besta

que coisa funesta
porque não me beijas?
desse teu  vermelho
tanto me beijas
como te revoltas

beija-me
vá lá!
beija-me com força
com língua se necessário for
deixa-me as marcas
que o tempo passou
deixa-me as memórias
que alguém se levantou

não se fazem homens
sem toques de lábios
pintados de vermelho
  
não se fazem homens
sem toques de lábios
pintados
  
não se fazem homens
sem toques de lábios
  
não se fazem homens
sem toques

amam melhor as mulheres
que pintam os lábios

efrem miranda

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Puro silêncio viciante

nunca o silêncio
será transbordante
as mãos que cultivam
submerjam as vozes
em vulvas banais

são tangentes ornamentais
ao centro do semblante
os mortos
não fazem silêncio
vivem nele
sem comungar

as máscaras agrilhoam o perdão
a festa dos estúpidos
não tem um fim
vive-se melhor de noite
sem a foice
de gume perfilado
atroando o histerismo

dos malditos sons…

da celebração do silêncio



efrem miranda