sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Um farol de noite

cai copiosamente a noite
por entre a espuma dos dias
mete medo o nosso medo
por vezes está escuro cá dentro

mete medo o medo dos outros
por vezes está escuro lá fora
por entre o rebombar da noite
cai docemente o que foi dia

faço girar a luz
acesa por dentro
que se guiem por fora
os marinheiros de outrora

espero que não atolem
não raspem o casco na rocha
de tanto sangrar
há marinheiros que morrem

mete medo o nosso medo
acendemos a luz de noite
ilumina a alma prata do cobarde
coragem ao homem que se afoite

e depois acalma a fúria
baixam as ondas as defesas
erguem-se os nossos filhos
à avidez do frio e dos remoinhos

aprender que de dia
não se erguem faróis
são como campos de girassóis
que rodopiam na apatia

de não saber
ser...

noite

E.M.Valmont

domingo, 12 de janeiro de 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Vender sonhos de graça

sem sonhar
não é possível vender sonhos
mesmo que sonhar
seja pouco mais que chutar
uma bola que vem desviada
vinda do nada

mesmo que sonhar
seja aquele pedaço a mais
que difere dos quase iguais
sem ter vergonha de chorar

vender sonhos de graça
faz da graça a própria vida
que embora sofrida
tem graça de ser vivida

não se sonha a própria morte
nem se vende o último sonho
mesmo de graça ao preço da sorte
um menino a acordar ainda risonho


na morte de um vendedor de sonhos


E.M. Valmont

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dez corvos e uma nau

Era meia-noite e metade de uma noite era demais. Deitado na cama, tapava-me apenas com o cobertor esburacado pelas ilusões. Eu teria também a alma esburacada, não pela desilusão, mas pela presciência de que a metade da noite não chegaria a fazer um dia.
Estava ali, porque me quiseram calar. Estava ali porque me quiseram cegar. Tinha apenas o direito de cheirar a minha urina. E o desejo de um homem, pode fazer a urina cheirar a maresia. Diziam os velhos que era impossível sair dali. E o desejo de um homem... pode o que a alma quiser.
Um dia haveria de sair, para poder ser eu, sempre que queira ser outro diferente.
Na parede existia uma janela pequena, onde me cabia a consciência e mais um bocado do corpo. As grades não me deixavam fugir. Agrilhoavam-me as crenças sempre que tentava sair.
Apenas a liberdade e um pouco de mim saiam amiúde para além dos muros. Ajudou-me um guarda a voar e a viver. Alargou-me as asas. Ensinou-me a batê-las e abriu-me a porta. A mim e a mais nove. Dizem os livres que voar em bando é mais fácil. Pena que o guarda de tanto ensinar, se esquecera de apreender.
Fugir, embora pareça, é bastante diferente de ser liberdade.

Que se batam as asas, que enquanto batem, parecem sempre que são livres. 



E.M.Valmont

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O chapéu das memórias

O homem de idade movia-se com a dificuldade de quem ao mesmo tempo é elegante. Esperava-o o banco de um jardim por trás do cemitério. Sempre o mesmo jardim. O mesmo banco e por trás, sempre o mesmo cemitério. A distância entre o passado e o futuro era ali muito curta, assim como acidentada. Se no mover rápido das damas, a intercalada frescura mental o fazia relembrar a juventude, os muros altos do cemitério como que se abriam, abraçando-o num gesto de bom anfitrião.

A sua mulher morrera de cancro.
As saudades eram suportadas pelo vento que lhe dificultava a leitura do jornal. Ainda ontem se lembrou dela e chorou apenas de uma vista. Embora velho, não gosta de chorar em público. Faz mal à humildade. Ele fora o primeiro a ficar viúvo e também por isso, sabe melhor que os outros que a morte fica para além daqueles muros. Amanhã é quinta-feira. É dia de visitar a campa da mulher e de lhe mudar as flores. Costuma fazer isso pela manhã, pela fresca, porque o incomoda visitar o futuro por livre e espontânea vontade. De tarde não joga damas porque está deprimido e precisa de tempo para ficar sozinho. Nessa tarde prefere ouvir rádio e comprar fruta.
As noites chegam sempre com o tirar do chapéu. Talvez pela última vez. Era um chapéu parecido com aquele que tinha quando conheceu a mulher. Comprou sempre iguais ou parecidos; os chapéus conservam melhor as memórias. E este era um bom chapéu. Colocou-o no bengaleiro onde sempre colocou as alegrias e as tristezas da vida.
Depois jantou, adormeceu e acabou por morrer…


Morreram dias mais tarde as flores da campa. Parece que choravam em silêncio, como sempre o fizeram.

Valmont

domingo, 29 de dezembro de 2013

Catch-22

maldita felicidade
que me deixa tão triste
é que sem tristeza não escrevo
e sem escrever, cai-me a felicidade no chão


efrem miranda

domingo, 22 de dezembro de 2013

O tamanho de Mandela

Nem sempre lavo o sexo da melhor maneira. Por vezes nem olho para ele. Finjo que ele não existe, resguardando-me de me aborrecer. Inquieto, pede-me a liberdade, como um tal pássaro azul a sul de nenhum norte. Concedo-lhe a imundice de uma mulher que nunca amou.
  
Vingo-me das mulheres, perdoando-as.  




efrem miranda

sábado, 21 de dezembro de 2013

Partes de um epitáfio

Acabarei por ser infeliz, se quiser conhecer o que estiver depois do fim da minha rua

E.M. Valmont

                                            
                    

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fecha-me os olhos quando saíres

o sangue que combata
a nossa eloquência
o que recuperar da vénia
na tua delicadeza
não recuperará da pequenez
da certeza
que as costas humedecerão a sarjeta
impregna o cheiro nauseoso
do receoso que se verga
e não te deixa ver o céu
conta as pedras que te calcam os pés
as mesmas que te pesam na fé
coloca o véu
espero que me feches os olhos
e me beijes a face
mesmo que te enoje
a virtude que se despoje
na realeza do manto púrpura
-deixem-me às escuras!

preciso de pensar apenas em mim 




efrem miranda

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Partes de um epitáfio



o Homem é o único ser que consegue ser verdadeiramente humano
     

E.M.Valmont                                                                                     

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

quando deus se ajoelhou para venerar




os homens sem ídolos

aprendem o pouco

que a consciência ordena

será pena

se idolatrares deus

será medo

se idolatrares um poeta



gosto de deuses que escrevem poemas

que não me salvam

mas também não me matam



eles

que morrem quando se matam



efrem miranda

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Eu e os outros

eu e os meus pequenos
eus
embirrantes seres
que gargalham
que se embebedam
amam desmesuradamente
os seus próprios
eus
mas também os outros
que mais não fazem
que bebericar da alma
e do meu próprio eu
sugam-me
como se eu fosse um bebedouro
não me tocam
mas sorvem-me
e cospem
não a mim
mas o que resta
dos pensamentos de mim


efrem miranda

sábado, 16 de novembro de 2013

Os homens não choram

chorarei todas as lágrimas
que se chorar numa vida
a vida que me afogará
numa única lágrima tua



efrem miranda

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A esperança dos contos



Disseram-me que acabaram por matar Quixote. Acho que foi obra da prostituta, da drogada e daquele director de televisão, que tem uma equação simples de conquistar exércitos de devoradores de lugares-comuns.

No lugar onde devia estar Quixote, está agora uma sombra confessa do diabo. 

Conseguirão os novos contos que chegam amanhã, abrir as coçadas cortinas que postergam a grandeza de um escritor?


No lugar onde devia estar Quixote, devia estar Quixote.


efrem miranda

domingo, 6 de outubro de 2013

Versos de um metro e oitenta



versos presos de fato engomado                         
rimam hirtos os vincos às bainhas    
às vontades, à honra e às medalhas 
do circunspeto trato ensaiado           

subir de costas os degraus vagos     
saudosa coragem a rebate                
da voz, a rítmica do embate
na curta viagem dos amigos            
                                                        

os outros versos
que se querem livres
que de versos
são mulheres
que de mulheres
são bonitas
não rimam
inspiram, o perfume
de não ter tamanho
de ser desenho
livre
são os versos
que de versos
apenas têm a grandeza
de poder não ser poema

efrem miranda