Depois de o abrir, vi que a capa
dura estava ligeiramente amarrotada. Tinha levado uma agrura da vida. A multidão gritava -
«Devolve, devolve, devolve» e eu, precipitadamente, pensei nisso. Se tem
defeito, é para devolver. E não é isso que fazemos todos, a tudo e a todos que têm defeito?
Mas este livro, tal como a mulher
que amo, é de apenas um exemplar e difícil de conquistar. Li as duas primeiras
páginas, como se tivesse a dar o primeiro beijo, no campo de ténis, atrás da escola primária do avião. E não me poderei apaixonar em apenas duas páginas e um beijo?
A multidão continuava em
uníssono- «Devolve, não presta, devolve, devolve».
Levei o livro para casa, ainda
que, com aquele sentimento que eu mereceria melhor. Mas também não mereceria
melhor dono, este pobre enjeitado? Estaremos bem um para o outro na desilusão,
mas também na devoção e no amor. Embora com essa capa dura desfigurada, tenho a certeza que não
serás menos Herberto Helder. E também não darás menos prazer. E porque te salvei da
fogueira, será que me podes dar um segundo beijo?
E.M. Valmonte