quinta-feira, 12 de junho de 2014

Se fosse coxo, devolvias-me à terra?







Depois de o abrir, vi que a capa dura estava ligeiramente amarrotada. Tinha levado uma agrura da vida. A multidão gritava - «Devolve, devolve, devolve» e eu, precipitadamente, pensei nisso. Se tem defeito, é para devolver. E não é isso que fazemos todos, a tudo e a todos que têm defeito?

Mas este livro, tal como a mulher que amo, é de apenas um exemplar e difícil de conquistar. Li as duas primeiras páginas, como se tivesse a dar o primeiro beijo, no campo de ténis, atrás da escola primária do avião. E não me poderei apaixonar em apenas duas páginas e um beijo?


A multidão continuava em uníssono- «Devolve, não presta, devolve, devolve». 


Levei o livro para casa, ainda que, com aquele sentimento que eu mereceria melhor. Mas também não mereceria melhor dono, este pobre enjeitado? Estaremos bem um para o outro na desilusão, mas também na devoção e no amor. Embora com essa capa dura desfigurada, tenho a certeza que não serás menos Herberto Helder. E também não darás menos prazer. E porque te salvei da fogueira, será que me podes dar um segundo beijo?

E.M. Valmonte


terça-feira, 10 de junho de 2014

Fim de tempo

há um tempo
que passa
pelos homens
sem tempo
escondido nos bolsos
coçados do tempo
de tanto tempo
que por lá passou

há um resto de tempo
que não passa
porque passou
não passa
porque doeu
a passar
… devagar

falta o fim
do tempo que falta
a chegar
ao

fim

E.M.Valmonte

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sara e o deserto das feridas lambidas




por que não sara?
lambendo-te as feridas
abertas
por que não sara?
se arde e se dói
se sarasse não havia sangue
que ainda escorre
que suja o chão
por onde passaste, sara
esta dor que incomoda
por que não, sara?
se a sara não quiser
então o amor não fechará
o que resta dele
não sara o amor pela sara
não sara, pois não, sara?

E.M. Valmonte

terça-feira, 3 de junho de 2014

Rir de um palhaço



    Sabia que daquela maneira, não te conquistaria nunca. Seria muito difícil que te fizesse desviar o olhar, mesmo que eu te olhasse incessantemente, em busca daquilo que outrora foste. Se alguma vez me olhasses, mesmo que de relance, seria fruto da chacota dos outros e não da tua vontade de me contemplar. Do fundo das ciclópicas gargalhadas dos teus pares, olhaste-me, não nos olhos, mas superficialmente, como habitualmente se costuma olhar para um palhaço. E também te riste… mas não gargalhaste. O tempo parecia ter parado. Tirei uma flor da lapela e entreguei-ta. Tropecei, caí e desmoronei também o meu disfarce. Todos riram. Afinal eu era um palhaço e os palhaços têm que fazer rir, cair, desmontar as angústias dos outros e as culpas das crianças. Só não podem amar, que isso é coisa séria. Deixaste a flor em cima do banco. Também eu a deixei lá, porque não preciso dela para ser palhaço. Servia apenas para ser mais fácil amar, mas para ser palhaço, não é preciso nem flor, nem amor.

E.M. Valmonte


domingo, 1 de junho de 2014

No dia em que te sentares na lua



Conheço homens com sonhos e uma só criança sem eles. No fundo, não é da tristeza que não lhe vem os sonhos. Nem tampouco da pobreza, que sempre faz nascer um ou outro, por aqui ou por ali. Será da falta de destino? Ou serão as múltiplas estradas que encaixam umas nas outras, sem terem fim?
Sentados num café, usámos a tolha de papel para aprendermos que as crianças e os homens, têm o tamanho que os sonhos quiserem. 


 "No dia em que te sentares na lua, não deixes de admirar as estrelas"

Desenho de E.M.Valmonte, numa toalha de papel de um café, a ensinar o filho a dimensionar os sonhos.