terça-feira, 23 de setembro de 2014

Agarra o Dia - Sugestão de Livro


de um dos melhores escritores de sempre



Saul Bellow (Lachine, 10 de Junho de 1915Brookline, 5 de Abril de 2005) foi um escritor judeu nascido no Canadá e naturalizado cidadão estadunidense.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1976. Premiado com o Guggenheim fellowship e a Medalha Nacional de Artes , viveu em Paris, onde escreveu The Adventures of Augie March.
 



domingo, 21 de setembro de 2014

Hallelujah







A melhor forma de se parabenizar um homem, acima dos outros homens

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Anzol de Prata

De tanto chorar para dentro, submergiu. Porque o desespero de um homem, mesmo que rijo de aparências reais, não consegue estancar a hemorragia de uma ferida aberta à estucada.
Submerso dele mesmo, debicava timidamente os anzóis que refletiam rasgos de prata, como que comunicando à superfície que existe uma quase vida, enamorada pela quase morte iminente.

Num espasmo de afoitamento, sentiu um rasgo frio no lábio superior e uma força que o puxava para o outro lado do desejo. Remexia os braços e as pernas, baloiçava o corpo, salvando-se morrendo devagar, cadenciando os movimentos ao natural baixar dos braços. Ser um homem submerso, dava-lhe o conhecimento que, quando mais lutasse, mais morreria. A luta acabara por acabar. No fim do esbracejar, ouviu-se um silvo, que afinal era para ser um grito, mas não houvera forças para tal excentricidade.

E.M. Valmonte

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Amava-a, como se amava um bom pão cheio de chocolate




A lancheira era de vime. Rangia à medida que os passos calcorreavam o caminho. Nas costas, levava um tipo de alforges onde cabiam os cadernos, as réguas e os livros. Mas essa parte nunca me interessou muito. A lancheira sim, cuidava dela como se cuida da memória. A minha mãe caprichava no lanche, o que fazia de mim, o centro das atenções naqueles intervalos de vinte minutos. Salazar sabia fazer escolas primárias, a minha mãe sabia fazer lanches e eu sabia trocá-los por beijos ou toques suaves em pequenos seios.
Ainda hoje, o ranger do vime me devolve genuínos sorrisos, só conseguidos pelos sonhos e pelas recordações. Trocava um papo-seco com fiambre por um beijo ou um croquete por um toque de raspão nos seios. Em Outubro desse ano, chegaram paletes de leite com chocolate de acesso gratuito a todos, o que me devolveu o ego às recônditas caves do enamoramento. Malditos comunistas, dizia a Dona Natália. E eu agora também o dizia. Eu que trocava pacotes de leite, por tardes de mão dada.
Ana Margarida era a miúda mais bonita da escola. Ela nunca quis o meu lanche, mesmo quando levei aquele pão-de-leite cheio de tulicreme avelã e seis bombocas de morango. Estava disposto a dar-lhe tudo. Tudo por um beijo. Nada de toques em seios, que ela não era uma qualquer. Amava-a, como se amava um bom pão cheio de chocolate.

E.M.Valmonte

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tempo de secar as lágrimas


Este tempo que me faz esquecer
o mesmo tempo que me esqueceu
da dor de tempo que afinal doeu
tempo que passou, e ainda faz doer


E.M.Valmonte


fotografia retirada da Internet

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

they can take our lives, but they´ll never take our freedom

Dois homens que não se sabem sentar a uma mesa e digladiar palavras, deveriam marcar um duelo e resolver as contendas, ao punho e ao florete. 


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Fios de missangas



Pois se o senhor não me levou à praia, ao surf e às raparigas de cabelo de ouro e de fios de missangas ao pescoço, como queria que eu casasse com uma mulher de bem? 
Levou-me para as terras altas e apresentou-me a outras raparigas, mesmo sabendo que aquelas não usavam fios de missangas e que o cabelo era descolorado. Elas não foram o que a minha mãe sempre quis para mim, mas não nos esqueçamos que foi com elas que aprendi a foder. E talvez tivesse aprendido mais depressa essa arte, do que propriamente a ler. A ler, aprendi com a dona Natália, que não queria saber mais de homens, depois de ter perdido o marido na guerra.
Só mais tarde percebi que o amor não vem do champagne, nem desses bordéis manhosos onde me trataram sempre por senhor doutor. Quando era pequeno, o chamamento de senhor doutor vinha por graça. Mais tarde, porque realmente extraí muita bala dos ombros dos chulos e das rótulas dos seguranças, tratavam-me respeitosamente e profissionalmente por senhor doutor. Para um chulo, dispara-se para a cabeça e para um segurança, para os joelhos. Uns são para matar, os outros apenas para vergar.
Amei algumas putas. 
Ameia-as, como se amam as mulheres puras, ou as outras que não sendo puras, também não são só putas, ou ainda as outras que não são mais nada, além de mulheres. Elas também me chegaram a amar. Uma de cada vez, à vez e a meias, no intervalo entre os clientes. Trabalhei no talho do senhor Francisco durante duas semanas. Precisava de ganhar dinheiro, não muito, mas o suficiente para ganhar afecto. Gastei o dinheiro em fios de missangas. Ofereci-os às mulheres que amei e fiz delas aquelas mulheres de bem, que a minha mãe sempre quis para mim.


E.M.Valmonte

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fatias de noite

Entram fatias inteiras de noite
pelos buracos, dos buracos dos estores
fossem aqueles buracos, escavados dos amores
fundeados à picareta, ao murro e ao açoite

imperialistas, as pás que desaguam em vento,
trauteiam ritmos sincopados sobre o corpo
nu, ferido, curvo e revolto ao desalento
rompem-se dos dedos, os anéis ao metacarpo

pedaços inteiros de claras de noite
a manhã mais cinzenta ao ópio absorto
de parir o dia, num leito que se aceite

na ferida do corpo, larvas que sugam o que resta
do resto da festa, na parte de lá da gangrena
a parte que dá pena, do círculo à aresta

parar a sesta ao inerte que não presta
em deixar morrer a noite
e todo este amor que se escapa pela pequena fresta

da janela, e dos buracos,
dos buracos dos estores


E.M. Valmonte

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Detectives Selvagens

Sempre sonhei em ser detective, mas durante metade de toda a minha vida, fui um selvagem, sem eira nem beira. 
Agora que fiz parte integrante da primeira edição da revista literária, Detectives Selvagens, com o capítulo «Os poetas morrem quando se matam», sinto que me tornei menos selvagem.
A ideia base é muito boa, os editores sabem o que fazem e a revista está muito bem conseguida. Gostei muito da experiência. Foi simples, directa e sem rodeios. Espero ser convidado para a edição número cem.
Obrigado a todos.

Efrem Miranda

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Naquele tempo, virava aos cinco e acabava aos dez

As tardes eram passadas a jogar futebol, no quintal da avó do Caricas. A dona Fernanda, cabelo grisalho da sujidade do tempo, andar perro de quem carregou muitos tarros de água no Alentejo, sabia como agradar um bando de miúdos. Dava-lhes lanche e a jovial liberdade de acharem que são livres.
Das mochilas, imaginavam-se balizas, das tampas e das pedras, as bolas, e do Caricas, do Botas, do Ângelo, do Mata-Gatos, famosos jogadores cheios de sonhos e uma habilidade própria de quem chutava as caricas como bolas e a própria vida como um sonho inacabado. Nessa altura os jogos de futebol não tinham tempo. Nessa altura, virava aos cinco e acabava aos dez. O lanche da dona Fernanda era servido habitualmente no fim do jogo, mas podia ser no intervalo, tudo dependia de quantos golos estavam marcados às cinco da tarde. O neto Caricas, era quem decidia se os papos-secos eram recheados com manteiga ou se barrados com tulicreme; e isso dependia do resultado da equipa do Caricas, aquando chamados pela dona Fernanda.
O Caricas jogava com o Ângelo e o Botas com o Mata-Gatos. Ganhava quase sempre o Caricas e os papos-secos eram quase sempre recheados com tulicreme. Não sei se os outros dois não facilitavam constantemente, à procura de um lanche mais achocolatado; sabor que conheceram ali, pela primeira vez. Em casa, os frigoríficos ecoavam as dificuldades dos anos oitenta. Apenas ali, na casa da dona Fernanda, o futuro era servido com a calma de quem pode esperar pela morte sem pressa.
Um dia, o Botas estava inspirado. Exibição soberba, brindada com sete golos. O Caricas apenas conseguira marcar um. Nesse dia, virou aos cinco, mas não acabou aos dez. Nesse dia, nem sequer houve lanche, nem jogo de match point no ZX Spectrum, nem sequer aquela amizade genuinamente achocolatada, foi prometida para o dia seguinte. Nesse dia, abandonaram cabisbaixos, sabendo que a vaidade teria que ficar órfã de festejos. Nunca mais se viram. A dona Fernanda morreu mais tarde e aquelas crianças, cresceram a saber que as pessoas importantes, gostam de ganhar sempre, os jogos.


E.M. Valmonte

terça-feira, 1 de julho de 2014

Para quando as portas rangerem de dor

Sei que um dia tens de ir
pergunta antes se podes partir, depois de mim
sempre depois de mim
amputaria as duas mãos
para não te dizer adeus
sem mãos, acenaria a cabeça
dando-te uma mão cheia de nãos
ajoelhado, mão juntas
defuntas, pedindo a deus
que o que sobra do retalho
das memórias, das raízes e das gavetas
não se engavetem as que estão mortas
que se abram mesmo que ranjam
e que ranger seja apenas a dor das portas
abertas, ao fundo o estúpido espantalho
que no rir do enxovalho, devia era espantar
mesmo que a morte não tivesse asas
nem bico, nem cagasse do céu
devia espantar, não espantado
por estar morto, quando não há vento
essa pouca brisa do norte, que não trouxe
pouca terra pouca terra de sorte
quando te vi, partir sem mim
sei que um dia tens de ir
voltando ao princípio de ti e do poema
não te esqueças de perguntar antes
se podes ir,

se eu conseguir, 

vou contigo




E.M. Valmonte



Fotografia de E.M. Valmonte em "Na areia, não se enterram os filhos"