sábado, 29 de novembro de 2014

Folhas soltas



Sentado no banco de madeira
o tempo a aguardar o desenrolar da vida
a queda das folhas e o badalar
dos sinos, que o envie para casa

a imaginar as linhas aleatórias
pendem das caudas das folhas que caem
parece que experimentam esferográficas
em folhas de papel quedas de sentido

porque estão tão vazias as folhas
as ideias e os ideais
dos homens e dos demais
os que me querem furtar o tempo

e as folhas que caem
e as que permanecem por escrever
sem tempo, sem folhas
sentado num banco de madeira
a aguardar o desenrolar da vida
ou outra coisa qualquer
mais simples que viver ou esperar
mais simples que cair
como uma simples folha em branco
que sem destino
se prostitui ao vento
a mim que a espero, me cria algum desalento


E.M.Valmonte

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Cegueira

Mesmo ao domingo, Theodor passeava pelas melhores avenidas da cidade, de fato completo, gravata de seda do Panamá e sapatos Testoni. Também o domingo, o ex-dia da família, servia para passar pelo escritório para assinar uns papéis. Apenas mais uma aborrecida pilha de papéis, marcada indelevelmente pela vontade de reduzir operacionais, em prol da recuperação de mais um infalível banco.
Perto da sumptuosa entrada, um homem cego, espojado no chão, apenas com uma das mãos levantadas, pedindo os restos das migalhas das moedas, que rompem os bolsos de um qualquer fato Abercrombie.
Theodor chocalhou as moedas, desfilou-as na palma da mão, contando mentalmente o preço do prazer da humilhação. Atirou-as, como se leccionasse gratuitamente a essência do capitalismo.
-Quem quer dinheiro, que o procure…mesmo que não o veja, estando ou não estando, espalhado no empedrado - disse Theodor, gratificando o seu aluno ocasional.
O vagabundo, homem despedido do sistema bancário, cegueira provinda de uma catarata degenerativa, tresandava a mijo por falta de coragem, da boca, um hálito fétido a capitalismo mal curado.
-Esse seu capitalismo é uma bênção, senhor doutor – retorquindo em sinal de oração – pena que atraia tantos bandidos malfeitores – concluiu, como se conclui a insignificância.

E.M. Valmonte

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A última nota



Sully morreu duas vezes. Podia ter-se matado, mas não; habituado a uma vida libertina e cheia de excessos, decidiu suicidar-se. E se o suicídio já é morrer uma vez, ele que acabou por infligi-lo a ele mesmo, deu cabo da sua segunda vida, naquele mesmo instante.

Suicidando-se… ganhou aquele tempo de vida necessário, para escrever pausadamente a sua nota de suicídio. Dizia apenas...            


“Depois disto, nada mais me restará. Não verão mais o meu sorriso...nem as lágrimas do meu inverno.”


E.M. Valmonte

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Há 40 anos a parabenizar verdadeiros amigos


“A Brother may not be a Friend, but a Friend will always be a Brother.”
                                                                           Benjamin Franklin


 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Fui eu prometer educar os filhos sob os desígnios da fé cristã



Hoje, o meu filho explicou-me a existência do universo. Explicou-me, como se explica alguma coisa complicada, ou seja, de forma simples. É verdade que as primeiras horas de catequese lhe provocaram a sensação de explicar tudo e a origem de tudo de uma forma, demasiado simplista. É verdade que os pais complicam sempre o que é simples, mas isto do universo é, para todo o universo, uma dúvida que realmente subsiste.

Que horas são?
São 17.30 – respondi
Onde estão as 17.30 horas?
No meu relógio
Onde está o teu relógio?
No meu pulso
Onde está o teu pulso?
No meu braço
Onde está o teu braço?
No meu corpo
Onde está o teu corpo?

Sei que o leitor deve estar enfadado, como aliás todos os pais nestas situações o estão, mas eu gosto de levar estas metralhadas de perguntas, geralmente até ao meu suicídio. Costumo cortar os pulsos, ou em dias solarengos, deixar-me cair do quinto andar.

O meu corpo está em casa – respondo abrindo a janela
Onde está a tua casa?
Está em Lisboa, que está em Portugal e que por sua vez está na Europa – resumi, não percebendo que resumindo, acelerava vertiginosamente a minha morte.

E onde está a Europa? – perguntou pacientemente, como se estivesse ainda a fazer a sua primeira pergunta

O sangue verte dos pulsos. Chovia copiosamente e certamente não esteve um bom dia para um suicídio por estatelamento em calçada portuguesa.
Acabei por perceber que Deus está imediatamente antes do Universo e que em vez de prometer educar os filhos sob os desígnios da fé cristã, deveria ter prometido educá-los sobre os desígnios da fé cristã. Acho que ninguém notaria e hoje teria uma vida mais descansada, com muito menos suicídios.

E.M Valmonte

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Príncipe dos demónios, senhor das moscas e da pestilência

de facto,
ajudar a acompanhar a morte
é parecido com mandar para norte
a sorte ao sul, que ao ficar estupefacto

disse-me o morto
que não existiam os anjos
os brancos e o outros marmanjos
e que ninguém lhe deu conforto

afinal não se caga nas nuvens
nem se anda todo nu
é mentira o medo de Belzebu
e de Deus, a submissão e as ordens

de não voltar a terra
-ai se eles sabem que depois de morrer,
é melhor não lhes dizer
ainda o mundo acaba em guerra

E.M. Valmonte

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A sorte da injustiça



O homem coxeava. Tinha um coxear de quem tinha dois centímetros a menos numa das pernas. Os olhos cruzavam-se num estrabismo mórbido. Falava ao telemóvel e dessa mão que segurava o aparelho, pendia um molho de chaves e um amuleto. As crianças fugiam dele enquanto gritavam. Os gritos não o deixavam comunicar com a única pessoa no mundo, que o amava. O homem enfurecia-se e andava mais depressa, quase correndo, embora com aquela sensação que ao tentar correr, estava permanentemente a subir pequenos degraus. Cansado de correr daquela forma estranha. Cansado de crianças. Cansado do mundo. E também deste mundo cheio de crianças que o obrigavam a correr daquela forma estranha. Quanto mais corria, mais as crianças gritavam. Mais ele corria. Mais elas gritavam...corria....gritavam...corria

Parou.

Gritava mais alto que qualquer criança, enquanto arremessava o telemóvel contra uma parede, desfazendo-o, ao mesmo tempo que desfazia a sua própria dignidade. Foi preso por dois polícias a pedido de um dos pais, de uma daquelas crianças, que gritavam tão alto que não deixavam ouvir a própria alma. 

O pai delator voltara ao vernissage. Voltara de forma triunfal, com o ar de um herói e de dever cumprido. Estes anormais a assustar as criancinhas. Abrira os braços acolhendo os amigos cheios de risos mordazes de quem acabara de aceder à imortalidade. Nos espelhos, refletiam as luzes intermitentes da urgência. No meio da intermitência, o olhar desviado de um estrábico, como que pedindo a morte divina daquele grupo de pessoas, que nunca souberam assustar criancinhas, mesmo que, de quando em vez, elas bem precisassem.
Perdera as chaves e o amuleto, quando lhe amordaçaram as mãos e os gestos, algemando-o para sempre à injustiça de se sentir um anormal. As chaves replicam-se. O amuleto é desnecessário, principalmente para um coxo que também é estrábico. A injustiça, crava-se no peito. É daí, do fundo desse lugar estranho, que nasce a vingança.

E.M. Valmonte

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Quase quase

A noite caíra, lentamente e de uma forma quase quase mortífera. Vinha polvorizada de um nevoeiro cerrado, o que me levou à experiência mais eloquente de quase quase cegueira. Os candeeiros hibernavam e os gatos pretos escondiam-se, não de mim, mas do esgar de mortandade que se sentia naquele beco. Uma pequena brisa levantara-se da esquina e percorria toda aquela rua, concedendo-lhe alguma sonoridade. Competia apenas com o ping ping de sucessivas gotas, provindas de uma caleira e que se incandesciam numa chapa de zinco, muito para lá de ferrugenta. Não se via nada. O olfacto tomava a liberdade de me mostrar caminhos inenarráveis. Cheirava a sangue, daquele sangue vermelho vivo, que ainda cheira a vida. E cheirava de forma abundante. Encostei-me, sentei-me e acabei por me deitar. Esperava que o tacto me respondesse àquela sensação de morte, que ali se vivia.

A que sabe um beco cheio de corpos mortos, cobertos de sangue?

Começara a chover. Sentira-a na cara, como agulhas afiladas que me estimulavam a dor. As grelhas dos esgotos escondiam as miudezas da noite, silvando a corrente a passar. Cheirava intensamente a ferro.

Fiquei sem saber a que sabe, a dor de doer, de quase quase morrer, daquele excesso de noite que escorreu pelos esgotos.

E.M. Valmonte