se não vens
então
eu nunca mais volto
se vieres
voltarei mais tarde
levo-te sem saber se voltas
terça-feira, 10 de setembro de 2013
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Indelével sabor a...
Quando agarrei o varão, ele gelou-me
as mãos e quis penetrar-me o gelo no coração como se desconfiasse que eu não
era digno para aquele deslize.
Deslizei rápido, acossado pelo
ensurdecer da sirene que palrava ao desespero dos outros.
Ainda vi a minha imagem refletida
no cromado do varão. Estava gélida como aliás deve ser uma imagem refletida da
coragem.
Entrei no camião tanque com a
pressa de quem sabe que os segundos desolam a esperança. Coube-me a janela. Não
gosto de me sentar à janela. À janela, os meus olhos são os primeiros a
derreter inolvidavelmente o choro das pessoas que perdem o tempo que demora a
vida. São vidros, e dos vidros apenas se podem esperar infundados reflexos e algumas
imagens de nós próprios.
As árvores ainda estavam de pé. Os homens
estavam vergados. Eu estive de pé durante várias horas, mas acabei por me
vergar. Algumas árvores acabaram também por cair junto de mim. Apaixonámo-nos e
fundimo-nos. Dos meus olhos planavam as fagulhas. Pedaços de cinza que trazem
pedaços de cada um. Pedaços de cada um que vão em toda a minha memória.
Grato pela vida dos outros. A
gratidão dos outros não me retorna a vida, nem a das árvores que se vergaram
comigo.
Quando me levantaram, desfiz-me
em cinza. As lágrimas não apagam mais fogo. Os meus pedaços de fuligem entram
na boca dos outros, causando um indelével sabor a…
efrem miranda
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Ontem, gostava de ter apreciado os alperces da dona Julieta
Ainda não sei quando morrer. Por
enquanto, vou descendo o monte até à vila, nesta estúpida incerteza de não
saber.
É de noite e de noite não se deve
morrer. É verão e no verão não se deve morrer. É quinta-feira e os sinos
começaram a tocar, desolando-me o coração, como se morrer fosse para uma quinta-feira.
Estou sozinho e nunca se morre
sozinho.
Na vila, os sinos calam-se para
mim, como se cala o resto da vila e o resto de mim.
Morri, mesmo sem querer fazê-lo.
E sabiam que eu não o queria de noite, de verão, e tampouco a uma quinta-feira.
Ontem gostava de ter passeado na
vila, jogado às damas com o senhor Álvaro, apreciado os alperces da banca da
dona Julieta e quem sabe, roubado um beijo à Júlia, que há tanto tempo o ando
para fazer. Sei que ela me olha com desejo. Eu teria sido o seu primeiro homem.
Para mim, ela seria o meu primeiro beijo. Nunca o fiz, porque sempre tive medo.
Também sempre tive medo de
morrer.
efrem miranda
efrem miranda
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Amam melhor as mulheres que pintam os lábios
de
lábios pintados
pareces
menos triste
de
olhos fechados
parecem-te
menos encantados
os
punhos em riste
um
país de ódios lançados
ao
ego da besta
que
coisa funesta
porque
não me beijas?
desse
teu vermelho
tanto
me beijas
como
te revoltas
beija-me
vá
lá!
beija-me
com força
com
língua se necessário for
deixa-me
as marcas
que
o tempo passou
deixa-me
as memórias
que
alguém se levantou
não
se fazem homens
sem
toques de lábios
pintados
de vermelho
não
se fazem homens
sem
toques de lábios
pintados
não
se fazem homens
sem
toques de lábios
não
se fazem homens
sem
toques
amam
melhor as mulheres
que
pintam os lábios
efrem miranda
efrem miranda
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Puro silêncio viciante
nunca o silêncio
são tangentes ornamentais
as máscaras agrilhoam o perdão
da celebração do silêncio
efrem miranda
será transbordante
as mãos que cultivam
submerjam as vozes
em vulvas banais
são tangentes ornamentais
ao centro do semblante
os mortos
não fazem silêncio
vivem nele
sem comungar
as máscaras agrilhoam o perdão
a festa dos estúpidos
não tem um fim
vive-se melhor de noite
sem a foice
de gume perfilado
atroando o histerismo
dos malditos sons…
efrem miranda
quarta-feira, 10 de julho de 2013
O Velho de Navalha no Bolso
O velho segredou
a antiga verdade
que a liberdade
nunca gostou
seremos livres
quando os homens souberem
a que sabe o amargo
da inóspita alegria
de quem nos defendia
[errata] de quem nos comia
a própria mão que nos acaricia
de navalha no bolso
o velho mata
a fome dos novos
olha-se nos olhos
os gritos mudos dos amantes
mentem os sorrisos
as vaidades errantes
da pequenez dos governantes
coseram mal as asas
descolam-se do corpo
quando pinga o suor
daquele que tentou voar
daquele que tentou viver
acabou por morrer
por não saber cair
acabou por morrer
por não saber
efrem miranda
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