quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Diário de um pai - dia 1(18 08 15)

1.55 da manhã. Nem os gatos pretos atravessavam a travessura de sair à rua. Um carro veloz com dois espíritos atormentados pelo passado. Ela chorava, ele não vertia lágrimas há mais de dez anos, mas tinha uma grande vontade de morrer; de falhar de morrer, de não ser capaz de dar vida ao propósito da sua vida. Não fosse a família, um par de amigos e um cão sem uma perna, que provavelmente já se tinha matado há muito.
Nunca fora capaz de tirar uma vida. Hoje tinha aquela estranha pressão, de não poder deixar de conseguir dar vida, à sua vida.



Acelerou.




Chegou a tempo de ver viver. Chegou a tempo de parir o seu propósito de vida. Não fossem os filhos, uma mulher, um par de verdadeiros amigos e um cão de três pernas, que o homem já não conseguiria gerar mais homens.


Não fossem…


Que não seriam, mais que abraços apertados dos seus filhos. 




Nuno Miranda de Torres
[Orgulhoso pai do seu segundo filho, Tiago de seu nome, nascido no dia 18-08-2015, nessa madrugada que nem os gatos  pretos  quiseram patinhar os telhados de zinco.]









quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Foi lá para chorar

Sempre tivera medo de dormir. Como que a morte o empurrasse para baixo, sempre que os olhos se fechavam. Aprendeu a viver com aquela sensação de um dormir mórbido de morte. Ainda assim gostava de velórios. Gostava apenas dos velórios que não eram de chorar. Encontrava sempre pessoas conhecidas, fumava cigarros e actualizava-se nos mexericos da família. Sempre faltaram aos velórios, as genuínas lágrimas dos que choram. Embora inerte e desfigurado, o morto acompanha os seus amantes, dando-lhes um reconfortante sentido de eternidade. A morte, aparece ao som dos primeiros torrões de terra seca a ecoar na madeira tratada. Nesse ribombar gélido, surgem as primeiras lágrimas sentidas de quem foi ali para chorar. Uma luta entre David e Golias; um passado enterrado em veludo e um presente esculpido pelo sol, rijo e calcado por solas gastas de vida. Parece o fim, o princípio da morte. A ausência eterna da presença, sempre lhe provocou náuseas incontroláveis. Parece mesmo o fim.

Ontem emocionou-se ao ver uma filha a despedir-se de sua mãe, pela última vez. Via-se que aquela mulher sabia que nunca mais iria ver a carne que lhe compunha a cara. Sabia, que nunca mais a cheiraria ou lhe cofiaria os cabelos. Sabia, que nunca soube como é que tudo acabaria. Afinal não sabia que as mães também morrem, deixando os filhos órfãos de conduta.

Último beijo numa cara já decomposta.

Abraçou-a durante sensivelmente dois minutos e guardou na pele, todos os sentidos que um passado morto ainda lhe conseguisse dar. Forçava a memória a mantê-la viva. Cheirou-a pela última vez e ficou grata. Soube naquele momento, que guardaria para sempre aquele cheiro a alfazema.

Nesses minutos, chorou incessantemente de ser vazio.  
Também ele chorou. Ele era daqueles que foi lá para chorar.

Nuno Miranda de Torres

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Olhos de vida

foi sem querer
mesmo sem (te) querer
que vi que te viver
não depende de te ver
basta que te viva
no pobre vislumbre da vida
podre de não ser de ver
pobre cegueira de (te) viver
conforta-me o apodrecer
de tanto (te) ver
do pouco que viver
que este ver de vida
me dá, que este morrer
de vida (te) dá, aos poucos
morrendo de momentos
que os olhos (te) dão
fosse a vida de querer viver
esses olhos nunca fechariam


Nuno Miranda de Torres

sábado, 13 de junho de 2015

O eu ou EU




embelezo-me
invejo-me
aprecio-me
falo-me
fotografo-me
vejo-me
vendo-me
beijo-me
exponho-me
conheço-me
amigo-me
falta-me apenas gostar de mim
um pouco mais
do que gosto que gostem de mim

Nuno Miranda de Torres

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Ramo de flores



Sabia que não iria chegar a horas. E como o simples facto de nunca chegar a horas, podia influir na vida de todos os que o rodeavam. A mulher, grávida do segundo filho, teria que se relembrar, em todos os quilómetros daquela estrada, dos anteriores abortos que tivera. E mais uma vez, relembraria tudo sozinha. E como foram dolorosos os anteriores abortos, quando sozinha, recebera a notícia de que não tinha sido capaz. Foi ela que se culpou da incapacidade que a vida lhes deu. Mais ninguém, apenas ela tivera a coragem egoísta de ter culpa . A solidão, nas más notícias, como que transfere a culpa para quem as ouve e não para as agruras da própria vida. Sem ninguém para partilhar a dor, sente-se a culpa da desgraça. Sente-se a náusea da perda e aquela sensação fortuita que provém da solidão mais pura. Essa pureza da solidão,  vem exactamente de quando não se quer estar legitimamente só.
Nesse dia, ele quis fazer diferente. Sabia que não chegaria a horas, mas pelo menos conseguiria estar no fim, altura onde se consolam os soldados e condecoram os generais . Não é preciso nenhuma coragem especial para estar apenas no fim do caminho. Nada que uma pitada de vergonha e medo não resolva a ausência.
Comprou flores. Aumentou o risco. O perfume das flores não combina com o sal das lágrimas. Arriscou tudo. Desta vez, tudo estaria bem e as flores seriam apenas para emoldurar o lindo sorriso da mulher. Pelo menos, era esse o seu desejo. As flores eram amarelas e verdes e pareciam bastante adequadas a uma qualquer situação de felicidade.
De flores em punho, ofegar próprio de quem nunca está a horas, percorreu o olhar de todas as mulheres da sala de espera, mas não encontrou aqueles olhos castanhos avelã, que ainda hoje o fazem seleccionar recantos de juventude.
Ficou parado no meio da sala de espera. O ramo de flores ainda estava viçoso. Ele segurava-o com força e com as duas mãos, como se o futuro deles dependesse da vida que o ramo emanava.
Abriram a porta do consultório. Ouviam-se vozes ao longe. Duas pétalas mais fracas desprenderam-se do caule que as sustinham e rodopiaram até ao chão, preparando uma espécie de manto flutuante.
Nesse dia, apenas aquelas duas pétalas já fracas, caíram no chão.


Nuno Miranda Torres

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Um metro de preconceito. Ou talvez fosse um pouco maior



Embora existissem lugares vazios, viajava sempre de pé, encostado a um seboso varão de ferro, que sempre me sustinha do medo do inferno e das alergias aos outros. De pé, sente-se na pele a coragem de olhar as pessoas nos olhos. De pé, foge-se mais depressa dos outros, de nós e daquela aragem contaminada dos hálitos picantes das pessoas. Eles que falam, fungam, espirram, berram, tossem, coçam, morrem aos minutos, matam-me lentamente por excesso de contacto. O chinês olhou-me pela última vez. Adormeceu. Se o tivesse degolado naquela altura, eu teria sido a sua última memória. Demasiada responsabilidade para quem não sabe ao certo se existe céu e inferno; eu agarrado a um chinês degolado, julgado por seres divinos, aquiescendo-me os meus melhores pecados.
Os indianos à minha frente riam baixinho. Riam-se de mim e para mim. Riam-se dos turistas alemães de classe média. Usavam meias brancas e também usavam sandálias. E riam-se de mim. 
Os angolanos no fim da carruagem falavam alto. Viviam em bairros fodidos. Viviam aturdidos. Podia não parecer, mas viviam assustados, controlados, manipulados. Falavam alto, de mim e para mim. Percebi que era medo. Medo…de ser. Medo de não ser, mais que apenas nada. Medo que eu fosse melhor que eles.
Uma loura de seios grandes riu-se para mim.
Sentado junto à porta de correr, estava um homem que lia um livro sobre pássaros. Sonham mais as pessoas que leem sobre pássaros. Óculos grandes, gravata de seda de nó largo, desafogando o travo da guerra que nunca passara da glote. 

Avenida.
Levou-me o preconceito a crer que todas as louras, de seios grandes, poderiam gostar de mim.
Esbofeteado nos restauradores.
Esbofeteado o preconceito na baixa-chiado. Abriram as portas de correr. Saltei do ímpeto da minha vergonha, corria a loura de raiva, esmurravam-me os pretos de excesso de poder, cuspiam-me os alemães de desprezo, riam-se os indianos de mim.
O homem que lia um livro sobre pássaros, seguiu para o terreiro do paço, onde acabou por se suicidar no rio tejo.
Em Santa Apolónia, levantaram do chão um chinês, que ainda jorrava sangue pela veia jugular. 

Nuno Miranda Torres

terça-feira, 19 de maio de 2015

Esquecimento




Esqueci-me de mim
no fundo da sobra
esqueci-me da borra
por não me fazer falta
esqueci-me de me esquecer
de não me lembrar de mim
será que foi assim
que morreu a lembrança?
que tal como eu
deixou de se lembrar
de ser mais que a maior
das pequenas memórias
será que foi assim
que me esqueci de mim?


Nuno Miranda Torres