segunda-feira, 12 de maio de 2014

As feridas antigas sangram sempre mais



o tempo que demora
a  vida, depende da pressa
que ela tem, encurta por fora
o  tempo, à mentira confessa

o mais velho tem menos vontade
que o seu próprio tempo de viver
tem menos pressa de correr
que a vida se agarre à saudade

ao mais novo, a força da ilusão
que um dia, dura uma vida
inteira, da parte que não for sofrida
que o sofrer, sofre por intrusão

hoje parece o dobro
que amanhã metade
é pouco
para enterrar

  
E.M Valmonte


(fotografia de E.M. Valmonte)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O sítio do livro

o  livro foi-se embora, vincada
a página que também foi vida
suja de cinza, depois de lambida
suja de cinza, o fumo esvaiu-se
ficando o pó, ou a cinza de quem morreu

o livro foi-se embora, descolada
a lombada que foi maltratada
dos tombos e da má sorte, desgastada
a capa e o título, da página desnorteada

o livro foi-se embora, não na alma
muito menos na bagagem de vivalma
que hoje os livros não viajam

o livro foi-se embora, não na mão
muito menos na própria sofreguidão
que hoje os livros não sujam

em cima de uma mesa coçada
ficou, esquecido na madrugada
à azinheira de canivete cravada
da sua paixão já desfolhada


E.M.Valmonte

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Proibir o incontestável valor

se o olhar de frente
para o mendigo presente
queira a fome que se sente
num país que a alma ressente(mente)

acordou, os olhos fechados
das laganhas das entranhas
revolução à custa das gadanhas
que soltaram os envergonhados

da vergonha de respirar fundo
da vergonha
         de uma parte do mundo


se o olhar de frente
e ainda existir presente


E.M. Valmonte

Partes de um epitáfio



Que se celebre o dia em que eles juntarem a liberdade e a vontade de ser livre. Se porventura existir um homem que conquiste a liberdade, então o outro perderá a vontade de ser livre.


E.M. Valmonte

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Maria da Nazaré teve, ontem, um abundante período menstrual



Das viscosidades sentia-se um forte cheiro a mofo. Afinal, não passavam de viscosidades repetidas, fruto de recalcadas desilusões.

Foi à igreja, porque gosta do silêncio e da esperança que a ressurreição lhe dá. Ajoelhou-se, lembrando o que S.Lucas escreveu sobre Jesus:


Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com a sua capacidade intelectual e com a maneira como comunicava as suas conclusões.” (Lucas 2:47)


Ela sabia que o marido chegaria a casa a cheirar a vinho barato e que certamente quereria penetrá-la com toda a força, numa orgia imaginária própria de um gladiador. Esta altivez demorará mais tempo que as outras. Por fim, voltará como sempre voltou, ao seu estado de entorpecimento vaidoso.

Ficou mais um pouco, saboreando o silêncio e a brisa fresca. Nestes momentos, o silêncio como que fecha os olhos, não deixando entrar esta imensidão de luz, que amanhã se apagará.


E.M. Valmonte

terça-feira, 15 de abril de 2014

Velas que queimam caminhos.



Achamos sempre que estamos a meio da vida, mesmo que os aniversários digam, que metade de uma vida é mais pequena do que a outra metade.

Querem os poetas viver mais que os homens. A metade da vida de um poeta chega a ser quase uma vida inteira. É por isso que eles morrem quando se matam.



Há mais de meia vida que nasceu E.M.Valmonte. 


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Se eles ainda me quiserem

É emigrante o que sentir saudade
                de casa e do pastel
                               de bacalhau e de vinho
                                               tinto na voz do fado
                                                               trinado que o enfada


É de casa que se vertem lágrimas
                hoje distam apenas os abraços
                               os beijos nos regaços
                                               as mães e os temperos
                                                               de solidão e desesperos

  
de dia esqueço
                de noite adormeço
                               de dia começo
                                               de noite pereço


um dia volto
como se voltar fosse esquecer
que perdi os dias
que eram apenas dias
que eram de viver

volto velho
contente pela venda
vendado pela contenda
de me ter vendido novo

volto se voltar
se eles ainda me quiserem


E.M. Valmonte

sexta-feira, 4 de abril de 2014

De ontem trouxe o passado

de ontem trouxe a trouxa
que hoje levo levando
amanhã frouxa, que afrouxa

o que me vou lembrando
na calçada da rua, debuxa
a vida, vivendo, de vez em quando


E.M. Valmonte

segunda-feira, 31 de março de 2014

Insubstituível - capítulo 1



Uma caixa de cartão numa das mãos. A outra, segurava a mão suja do filho de seis anos, que ainda não percebia porque é que os homens de gravata são maus. Procuravam ambos um destino, agora que o banco lhes ficara com a casa que não conseguiram pagar.
A caixa de cartão tinha apenas fotografias dos dois e um rato de pelúcia, amigo inseparável do pequeno Joaquim, na arte de adormecer sem pesadelos.
Não tinham para onde ir. Apenas uma amiga que morava em Carnaxide. Chamou um táxi, mesmo sabendo que não o podia pagar. É mais fácil fugir de um táxi do que de um autocarro.
No fundo acreditava na bondade dos homens. Ainda hoje acredita, mesmo depois de terem prendido o seu filho, por mais de vinte anos.
No banco de trás, os olhos fixavam o taxímetro, que teimava em criar uma dívida insuportável.
A viagem parecia ter terminado.
-São dezoito euros e vinte cêntimos – disse o taxista apressado
-Não tenho dinheiro nenhum – retorquiu, pedindo clemência.
O homem saiu do carro, ela levou a mão aos bolsos e desencantou no forro do casaco, dois euros e dois cêntimos.
-É tudo o que tenho - disse estendendo a mão - eram para o lanche do miúdo - acreditando na bondade dos homens.
O homem olhou fixamente para o decote de Maria, de onde sobressaiam os seios grandes e firmes, próprios de uma mulher nova e bonita. Levou a mão grosseira a um dos seios e apalpou-o várias vezes. Olhou em redor, assegurando-se que estariam sozinhos, comunicando-lhe em surdina a sua beneficência.
-Isto também é dinheiro - disse-lhe - usando agora as duas mãos.
Maria percebeu que fugir de uma dívida não é tão fácil como de um homem. Da caixa de cartão retirou o rato de pelúcia, colocando-o junto ao peito do pequeno Joaquim, acariciando-o.
-Cega e ensurdece, meu querido filho.
Foi com o corpo que Maria pagou a corrida. Fechou também ela os olhos e ouviu apenas um zumbido cristalino, que pensa ser do frio das lágrimas. Depois do orgasmo, fez-se silêncio, como sempre se faz, mesmo com os amantes.
Depois sentou-se num café e pediu uma sandes de manteiga e um leite com chocolate, que o miúdo já passara por muito.
Nessa noite, nem o pequeno rato de pelúcia evitou o primeiro pesadelo de Joaquim. 


continua... 


E.M. Valmont