quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tempo de secar as lágrimas


Este tempo que me faz esquecer
o mesmo tempo que me esqueceu
da dor de tempo que afinal doeu
tempo que passou, e ainda faz doer


E.M.Valmonte


fotografia retirada da Internet

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

they can take our lives, but they´ll never take our freedom

Dois homens que não se sabem sentar a uma mesa e digladiar palavras, deveriam marcar um duelo e resolver as contendas, ao punho e ao florete. 


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Fios de missangas



Pois se o senhor não me levou à praia, ao surf e às raparigas de cabelo de ouro e de fios de missangas ao pescoço, como queria que eu casasse com uma mulher de bem? 
Levou-me para as terras altas e apresentou-me a outras raparigas, mesmo sabendo que aquelas não usavam fios de missangas e que o cabelo era descolorado. Elas não foram o que a minha mãe sempre quis para mim, mas não nos esqueçamos que foi com elas que aprendi a foder. E talvez tivesse aprendido mais depressa essa arte, do que propriamente a ler. A ler, aprendi com a dona Natália, que não queria saber mais de homens, depois de ter perdido o marido na guerra.
Só mais tarde percebi que o amor não vem do champagne, nem desses bordéis manhosos onde me trataram sempre por senhor doutor. Quando era pequeno, o chamamento de senhor doutor vinha por graça. Mais tarde, porque realmente extraí muita bala dos ombros dos chulos e das rótulas dos seguranças, tratavam-me respeitosamente e profissionalmente por senhor doutor. Para um chulo, dispara-se para a cabeça e para um segurança, para os joelhos. Uns são para matar, os outros apenas para vergar.
Amei algumas putas. 
Ameia-as, como se amam as mulheres puras, ou as outras que não sendo puras, também não são só putas, ou ainda as outras que não são mais nada, além de mulheres. Elas também me chegaram a amar. Uma de cada vez, à vez e a meias, no intervalo entre os clientes. Trabalhei no talho do senhor Francisco durante duas semanas. Precisava de ganhar dinheiro, não muito, mas o suficiente para ganhar afecto. Gastei o dinheiro em fios de missangas. Ofereci-os às mulheres que amei e fiz delas aquelas mulheres de bem, que a minha mãe sempre quis para mim.


E.M.Valmonte

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fatias de noite

Entram fatias inteiras de noite
pelos buracos, dos buracos dos estores
fossem aqueles buracos, escavados dos amores
fundeados à picareta, ao murro e ao açoite

imperialistas, as pás que desaguam em vento,
trauteiam ritmos sincopados sobre o corpo
nu, ferido, curvo e revolto ao desalento
rompem-se dos dedos, os anéis ao metacarpo

pedaços inteiros de claras de noite
a manhã mais cinzenta ao ópio absorto
de parir o dia, num leito que se aceite

na ferida do corpo, larvas que sugam o que resta
do resto da festa, na parte de lá da gangrena
a parte que dá pena, do círculo à aresta

parar a sesta ao inerte que não presta
em deixar morrer a noite
e todo este amor que se escapa pela pequena fresta

da janela, e dos buracos,
dos buracos dos estores


E.M. Valmonte

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Detectives Selvagens

Sempre sonhei em ser detective, mas durante metade de toda a minha vida, fui um selvagem, sem eira nem beira. 
Agora que fiz parte integrante da primeira edição da revista literária, Detectives Selvagens, com o capítulo «Os poetas morrem quando se matam», sinto que me tornei menos selvagem.
A ideia base é muito boa, os editores sabem o que fazem e a revista está muito bem conseguida. Gostei muito da experiência. Foi simples, directa e sem rodeios. Espero ser convidado para a edição número cem.
Obrigado a todos.

Efrem Miranda

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Naquele tempo, virava aos cinco e acabava aos dez

As tardes eram passadas a jogar futebol, no quintal da avó do Caricas. A dona Fernanda, cabelo grisalho da sujidade do tempo, andar perro de quem carregou muitos tarros de água no Alentejo, sabia como agradar um bando de miúdos. Dava-lhes lanche e a jovial liberdade de acharem que são livres.
Das mochilas, imaginavam-se balizas, das tampas e das pedras, as bolas, e do Caricas, do Botas, do Ângelo, do Mata-Gatos, famosos jogadores cheios de sonhos e uma habilidade própria de quem chutava as caricas como bolas e a própria vida como um sonho inacabado. Nessa altura os jogos de futebol não tinham tempo. Nessa altura, virava aos cinco e acabava aos dez. O lanche da dona Fernanda era servido habitualmente no fim do jogo, mas podia ser no intervalo, tudo dependia de quantos golos estavam marcados às cinco da tarde. O neto Caricas, era quem decidia se os papos-secos eram recheados com manteiga ou se barrados com tulicreme; e isso dependia do resultado da equipa do Caricas, aquando chamados pela dona Fernanda.
O Caricas jogava com o Ângelo e o Botas com o Mata-Gatos. Ganhava quase sempre o Caricas e os papos-secos eram quase sempre recheados com tulicreme. Não sei se os outros dois não facilitavam constantemente, à procura de um lanche mais achocolatado; sabor que conheceram ali, pela primeira vez. Em casa, os frigoríficos ecoavam as dificuldades dos anos oitenta. Apenas ali, na casa da dona Fernanda, o futuro era servido com a calma de quem pode esperar pela morte sem pressa.
Um dia, o Botas estava inspirado. Exibição soberba, brindada com sete golos. O Caricas apenas conseguira marcar um. Nesse dia, virou aos cinco, mas não acabou aos dez. Nesse dia, nem sequer houve lanche, nem jogo de match point no ZX Spectrum, nem sequer aquela amizade genuinamente achocolatada, foi prometida para o dia seguinte. Nesse dia, abandonaram cabisbaixos, sabendo que a vaidade teria que ficar órfã de festejos. Nunca mais se viram. A dona Fernanda morreu mais tarde e aquelas crianças, cresceram a saber que as pessoas importantes, gostam de ganhar sempre, os jogos.


E.M. Valmonte

terça-feira, 1 de julho de 2014

Para quando as portas rangerem de dor

Sei que um dia tens de ir
pergunta antes se podes partir, depois de mim
sempre depois de mim
amputaria as duas mãos
para não te dizer adeus
sem mãos, acenaria a cabeça
dando-te uma mão cheia de nãos
ajoelhado, mão juntas
defuntas, pedindo a deus
que o que sobra do retalho
das memórias, das raízes e das gavetas
não se engavetem as que estão mortas
que se abram mesmo que ranjam
e que ranger seja apenas a dor das portas
abertas, ao fundo o estúpido espantalho
que no rir do enxovalho, devia era espantar
mesmo que a morte não tivesse asas
nem bico, nem cagasse do céu
devia espantar, não espantado
por estar morto, quando não há vento
essa pouca brisa do norte, que não trouxe
pouca terra pouca terra de sorte
quando te vi, partir sem mim
sei que um dia tens de ir
voltando ao princípio de ti e do poema
não te esqueças de perguntar antes
se podes ir,

se eu conseguir, 

vou contigo




E.M. Valmonte



Fotografia de E.M. Valmonte em "Na areia, não se enterram os filhos"

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tenho inveja do teu BMW



O meu amigo Varela tem setenta anos. Gosta de mulheres, porque sempre gostou, não porque chegou aos setenta anos. Quarenta e sete dias depois de a sua mulher morrer, conquistou uma mulher mais nova. Varela ainda tem erecção, e prometendo um bom jantar de marisco às senhoras com quem vai partilhando a solidão, elas ainda gritam desalmadamente quando ele as penetra, criando nele a expectativa de que, ainda consegue dar genuíno prazer a uma mulher. Ele sabe que não lhes consegue dar prazer, mas desde que os outros julguem que ele dá, então é querer vê-lo, de sorriso maroto estampado no rosto, a passear pelo bairro.  

Apenas ele sabe que as sirenes, por vezes, não passam de sirenes ruidosas. 

E.M.Valmonte

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Partes de um epitáfio

Se eu não sentir a queda, ninguém me dirá que eu caí


E.M.Valmonte

sábado, 21 de junho de 2014

Por ter passado tanto tempo, a maionese azedou

Parece que a noite
se encarrega de esconder
a vergonha, do que se afoite
mesmo não tendo o que se ser
falta apenas o barulho
das tampas dos caixotes
de onde se tiram verdadeiros lingotes
de espinhas e molho mostarda
de carne mal mastigada
ao infortúnio da vida, mal passada
lamber depois de sorver
as últimas gotas de gasosa
seria então mais que viçosa
a cabeça de gamba não chupada
numa porção disforme de maionese
falta uma mulher de diocese
um brinde, o prazer que provinde
do sexo, sem nexo de ser
à bruta, que não há fruta
a maionese azedou
do tempo que passou
entre o luxo e o lixo
o alto e o baixo
o rico e o pobre
o fresco e o estar podre
por ter passado tanto tempo
a maionese azedou
ficou também ela estragada
o homem quase morreu
sem dar por isso, ou quase nada
acabou por sentir uma pontada
que o estatelou no chão
de onde nunca saiu
o cabelo estremunhado
deixava cair, o desmazelado
que o homem se sentiu
todo torto, talvez morto
alguém que lhe chupe a cabeça
que morto, nada há que o impeça

E.M. Valmonte


fotografia de E.M. Valmonte


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Se fosse coxo, devolvias-me à terra?







Depois de o abrir, vi que a capa dura estava ligeiramente amarrotada. Tinha levado uma agrura da vida. A multidão gritava - «Devolve, devolve, devolve» e eu, precipitadamente, pensei nisso. Se tem defeito, é para devolver. E não é isso que fazemos todos, a tudo e a todos que têm defeito?

Mas este livro, tal como a mulher que amo, é de apenas um exemplar e difícil de conquistar. Li as duas primeiras páginas, como se tivesse a dar o primeiro beijo, no campo de ténis, atrás da escola primária do avião. E não me poderei apaixonar em apenas duas páginas e um beijo?


A multidão continuava em uníssono- «Devolve, não presta, devolve, devolve». 


Levei o livro para casa, ainda que, com aquele sentimento que eu mereceria melhor. Mas também não mereceria melhor dono, este pobre enjeitado? Estaremos bem um para o outro na desilusão, mas também na devoção e no amor. Embora com essa capa dura desfigurada, tenho a certeza que não serás menos Herberto Helder. E também não darás menos prazer. E porque te salvei da fogueira, será que me podes dar um segundo beijo?

E.M. Valmonte


terça-feira, 10 de junho de 2014

Fim de tempo

há um tempo
que passa
pelos homens
sem tempo
escondido nos bolsos
coçados do tempo
de tanto tempo
que por lá passou

há um resto de tempo
que não passa
porque passou
não passa
porque doeu
a passar
… devagar

falta o fim
do tempo que falta
a chegar
ao

fim

E.M.Valmonte

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sara e o deserto das feridas lambidas




por que não sara?
lambendo-te as feridas
abertas
por que não sara?
se arde e se dói
se sarasse não havia sangue
que ainda escorre
que suja o chão
por onde passaste, sara
esta dor que incomoda
por que não, sara?
se a sara não quiser
então o amor não fechará
o que resta dele
não sara o amor pela sara
não sara, pois não, sara?

E.M. Valmonte