Sei que um dia tens de ir
pergunta antes se podes partir, depois de mim
sempre depois de mim
amputaria as duas mãos
para não te dizer adeus
sem mãos, acenaria a cabeça
dando-te uma mão cheia de nãos
ajoelhado, mão juntas
defuntas, pedindo a deus
que o que sobra do retalho
das memórias, das raízes e das gavetas
não se engavetem as que estão mortas
que se abram mesmo que ranjam
e que ranger seja apenas a dor das portas
abertas, ao fundo o estúpido espantalho
que no rir do enxovalho, devia era espantar
mesmo que a morte não tivesse asas
nem bico, nem cagasse do céu
devia espantar, não espantado
por estar morto, quando não há vento
essa pouca brisa do norte, que não trouxe
pouca terra pouca terra de sorte
quando te vi, partir sem mim
sei que um dia tens de ir
voltando ao princípio de ti e do poema
não te esqueças de perguntar antes
se podes ir,
se eu conseguir,
vou contigo
E.M. Valmonte
 |
| Fotografia de E.M. Valmonte em "Na areia, não se enterram os filhos" |