Em nada existe um fim
Esta é a última folha deste diário. As últimas folhas são sempre pouco
escritas, mas têm a pressão de apresentarem um fim para a história.
Estou contente de a escrever. Comecei este diário e troquei sempre os
textos pela sensação de perda, que o olhar para um berço vazio me dava. Comecei, sem saber como acabaria.
Chorei muito e vi os da minha família chorarem muito.
Mas nas últimas folhas nunca se chora verdadeiramente. A capa é dura e não
humedece as lágrimas.
Trazer à terra.
Salvar.
Cuidar.
E deixá-los voar.
Os filhos regressam sempre a casa.
Amanha serei mais homem. Pode ser que consiga unificar a família. E todos
estão vivos e todos estão bem. Amanhã serei mais homem do que fui estes dezoito
dias consecutivos.
Descansaremos hoje das trincheiras, que amanhã começaremos um novo livro.
Temos que escolher o título e isso não e fácil, porque não o podemos alterar a
meio.
Afinal as últimas folhas podem não ser… pouco escritas…como podem não ter que ter final nenhum, porque em nada existe um fim.
Nuno Miranda de Torres
Nem uma última folha de um livro me
chegaria para agradecer o que fizeram por mim. A minha mulher, deu-me coragem, o
meu filho mais velho deu-me força de continuar a viver. A minha família chorou
comigo e deixou-me chorar sozinho. O meu melhor amigo, deu-me amizade. Os meus
outros amigos deram-me o que me faltava. Preocuparam-se comigo e com toda a
minha família.
Os médicos e as enfermeiras deram-me o
meu filho de volta. E isso é quase tudo o que cabe num coração de um pai.
É por tudo isto, que uma pequena folha
em branco, mesmo que seja a última do livro, nunca será suficiente para vos
mostrar a minha gratidão.
Obrigado!